SRZD | Eugênio Leal

Envie fotos, vídeos e textos para nossa equipe


Quantidade x qualidade

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 09/10/2008 09:57:59

Curioso... no ano em que o número de sambas inscritos despencou a simpática escola de São Gonçalo apresenta uma de suas melhores safras. Todos os sambas que estão na disputa da Porto da Pedra são de boa qualidade - com destaque para as diferentes e excelentes interpretações poéticas do tema.

A explicação para isso está no argumento do enredo, que mexe com o imaginário de maneira instigante. Nestes casos é um sofrimento cortar cada samba. Mas como "só ganha um", muita coisa legal vai para o arquivo da "volta dos que não foram".

Beto Grande, JC Couto, Jorginho JB, Boró e Zizi 

Letra inteligente, descritiva, reflexiva e - ao mesmo tempo - leve. Melodia sem muitas variações, mas fluente e correta.

Vadinho, Fernando Macaco, Denil, Jarrão e Toni  

Lindo exercício poético. Leitura interessantíssima do tema. O refrão principal resume o anseio do ser humano ao "curiar": descobrir os segredos da vida. A letra passa por todos os setores com lirismo e beleza. A linguagem indireta, entretanto, dificulta o entendimento de certas passagens do enredo para quem não leu a sinopse.

Melodia sinuosa, bem construída, agradável e cheia de suingue. Falta um pouco de "pegada" ao refrão central.

Ronald Belfort, João Paulo, Vinicius Magem, Gabriel Martins e Anderson Papo

A melodia é o ponto forte. Ela transmite leveza, uma certa emoção e também é alegre, fluente. Destaque para o trecho que diz "Vou sonhar... Com Santos Dumont, voar / Imaginação no ar / Do pai da criação". O único senão musical é exatamente a conexão deste trecho com o resto do samba. Ele parece fora de sintonia com o que vem antes e depois. A letra não é tão brilhante, mas está longe de comprometer.

Waldeir Melodia, Laudelino, Maia, Sandro Batistão e Manolo

Destaque para a melodia do refrão central: diferente e guerreira. A letra tem altos e baixos. A primeira parte é melhor que a segunda. Algumas passagens do enredo foram mais valorizadas do que outras que - teoricamente - têm o mesmo peso. A gravação não ficou boa, poderia ter sido mais caprichada.

Fábio Costa, David de Souza e André Felix

Se um grande refrão ganha uma disputa, este samba sai na frente. É daqueles que faz a gente levantar e sair cantando, batendo no peito. E resume com perfeição o argumento do enredo. Uma pancada!

E o resto do samba mantém o nível. A letra passa por todo o enredo com muita categoria, em mais uma leitura inteligente e talentosa do tema. E a melodia é valente, bem encadeada, excelente para o canto.

O ponto um pouco menos brilhante é o refrão do meio, que não tem a mesma pegada das outras passagens do samba. Ainda assim aparece como o grande favorito.  

Tuiuti, um cassino entre duas opções

A escola de São Cristóvão teve apenas sete sambas inscritos em seu concurso. Por isso teve muito tempo para ouvir os concorrentes sem precisar cortá-los. O enredo, muito bom, facilita o trabalho dos compositores e ajuda a escola. Façam suas apostas... quem vai levar?  

Aníbal, Gilmar Silva, Jurandir, Jerônimo GG, Fábio Malafaia e Jurandir Terra

Samba leve, bem encadeado, de letra bem construída - que conta o enredo com correção e beleza. Boa melodia, especialmente nos refrãos - que saem do lugar comum. Forte concorrente.

Os outros três finalistas, você poderá conferir a análise no dia da final durante a transmissão em tempo real do SRZD-Carnavalesco.


| 4 Comentários | Topo


Poucas opções

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 01/10/2008 23:17:57

A Grande Rio é, dentre as escolas que disputam os primeiros lugares, a que tem pior média de notas no quesito samba-enredo desde que foi instituído o atual sistema de julgamento. Não sei dizer se isso acontece em função das opções da direção da escola ou da pouca quantidade de obras de alto nível em disputa.

Acho que é um pouco dos dois. Lembro de carnavais em que a escola de Caxias tinha sambas em qualidade e quantidade. Isso ocorreu, por exemplo, em 2005 quando os quatro finalistas eram muito bons. Tanto que juntou três deles num só. Acredito também que as últimas escolhas tenham desanimado alguns compositores.

O fato é que a escola da Baixada não possui muitas alternativas. O que não quer dizer que, destes poucos sambas, não possa tirar uma boa obra para o carnaval 2009, pelo contrário. 

Deré, Emerson Dias, Rafael Ribeiro e Mingau

Refrão forte, letra excelente, melodia - especialmente na segunda parte - deliciosa. O trecho que vai de "Eu vi nascer" até "sonho ou ilusão que me conduz" é tudo o que a gente sonha ouvir uma escola cantando.

O refrão final "Minha alma é tricolor... a Grande Rio balança" é instigante e valente.

Vejo um pequeno senão apenas no refrão central, cujas frases iniciais dos primeiros versos têm um certo grau de dificuldade para o canto. É uma opção melódica para estimular a escola, mas fica muito corrido (A força de um povo, que revoltado... cruzou fronteiras movimentando).

A produção da gravação poderia ter enfeitado menos o samba. Há muitas paradinhas, efeitos especiais, contra cantos. Estes excessos atrapalham a compreensão da melodia - que é muito boa. É como uma mulher bonita com muita maquiagem - atrapalha. Este samba não precisa destes artifícios para mostrar sua beleza.

Marcio das Camisas, Marcelinho Santos, Licinho Jr e Edispuma

A melhor letra da safra. Uma verdadeira aula sobre o enredo. Passa com muita inteligência por todos os setores. É descritiva e didática sem ser chata. Coisa de craque.

A melodia, entretanto, não é tão brilhante. Não que seja ruim, mas carece de momentos mais inspirados. É uma música burocrática, apenas. Não mexe com a emoção do desfilante.  

Elias Billico, Regis, Helinho do Pantanal e Marcio Paiva

Samba valente, de excelente refrão e letra descritiva. É um dos poucos que citam a fundação da cidade após a saída dos franceses. Talvez a preocupação em citar com clareza todas as passagens do enredo tenha forçado os autores esticar demasiadamente a obra. A partir da metade da segunda parte ela parece se perder na tentativa de casar informação com música de qualidade. Não fosse isto, seria forte candidata à vitória.  

Levi Dutra, Paulo Onça, Sylvinho e Ponce de Leão

Tem na melodia seu ponto forte. Ela é suave e nostálgica, com destaque para os trechos "vem bailar comigo amor" e "todo requinte da "cidade luz" / "passos" que marcaram, legados que deixaram / minha cidade tão maravilhosa!"

A letra tem algumas boas passagens, mas não chega a impressionar. A poesia cumpre seu papel de servir bem à melodia.  

Ney do Pagode, Jorge Moreira, Marcelo Santos e Ronaldo Camargo

Bom refrão final. Melodia simples e cadenciada, com alguns bons momentos, mas sem brilho. Letra com altos e baixos. Dominguinhos não canta a segunda parte e seus cacos atrapalham a compreensão do samba.

A Renascer vai bem!

O título do enredo, uma brincadeira antiga, não é lá dos mais poéticos. Mas quase todos os compositores tentaram encaixá-lo no refrão final, tirando a força do mesmo. De qualquer forma a escola tem uma gama de obras, com diferentes abordagens musicais e poéticas, muito interessante.

Adriano Cesário, Josemar Luciano, Teleco e Julião

Gosto do tipo de letra que retrata o enredo sem que sejam necessárias outras explicações. É este o caso do samba dos campeões de 2007. A gente vê o enredo descrito com clareza e poesia. Há boas sacadas como "Oceanos de medo, horizontes de sonhos".

A musicalidade, entretanto, não está no mesmo nível. A melodia, com algumas exceções, é "reta" e simplista - inclusive no refrão final. Falta um momento diferenciado para acompanhar a qualidade poética.     

Maurinho Valle, Rene, F. Andrade, Mario Junior, Carlos Dias e Bero

A letra, em primeira pessoa, descreve "passo a passo" o enredo sem trazer, entretanto, um diferencial poético que a faça brilhar. A melodia, sem muitas variações, flui sem grandes entraves e também sem empolgar.

Moisés Santiago, Jaime Cesar, Nerinho, Branco e Renan Chaves

Samba alegre, valente e com divisão incomum (3 refrãos). Tem belos momentos musicais, como o refrão central e a segunda parte.

A letra, dentro da proposta de se fazer um samba leve e "pra frente", é bem enxuta, resumida - mas contém tudo o que o enredo pede - prova da boa capacidade poética dos autores.   

Gabriel da Penha, Leandro Nogueira, Luiz Gustavo, Deco e Hélio Luna

Este tem um tom mais emotivo e se propõe a descrever com mais minúcias o tema. Possui algumas passagens bem interessantes, especialmente na primeira parte ("andanças que a "fé" confortou, distâncias que a roda encurtou", "ao longe... o horizonte e o prazer em desbravar)". É interessante e bem encaixada a citação ao "viajar de alegoria". O refrão final é muito bom e reflete com sutileza o momento da escola.


| 22 Comentários | Topo


Para mexer com a arquibancada

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 29/09/2008 09:42:52

A determinação veio da direção da Beija-Flor: um samba para contagiar o público, sem baixar o nível musical. É verdade que a poderosa escola de Nilópolis vem mostrando nos últimos anos sambas de indiscutível qualidade que dão resultado: desde 1998 ela não ganha uma nota diferente de dez no quesito.

É verdade também que não consegue emocionar o público. Ao que parece esta falta de comunicação com os espectadores incomoda. Deixa a falsa impressão de que as vitórias não são abençoadas pelo povo. Se a iniciativa está certa ou errada só o tempo nos dirá. Da minha parte, confesso que estava satisfeito com o estilo da agremiação.

Alguns compositores entenderam a mensagem, trabalharam muito bem e produziram obras que mantém quase o mesmo nível e que acrescentam "pegada", "valentia" e alegria. Outros não conseguiram se libertar do estilo que marcou a escola nos últimos anos.

Mais uma vez a turma de Cláudio Russo desponta como favorita, mas há outros sambas concorrendo com muita força e a disputa não deve ser tão fácil quanto a do ano passado.

Claudio Russo, J. Veloso, Leleco, Carlinhos Detran e Marquinhos

Os bi-campeões se mexeram. Encurtaram a letra, condensando o enredo em 26 linhas muito bem escritas. O texto é objetivo e completo, passando com talento por todos os setores da escola. A melodia ganhou andamento mais acelerado e ficou mais leve, fluente.

O samba tem belos momentos como a preparação para o primeiro refrão ("Rainha do Egito eu sou o seu faraó...Beija-Flor") e o meio da segunda parte ("oh mãe o seu ventre banhou o meu ser de amor...o mais saudável coração do mar"), mas o maior destaque vai para o refrão final. Ele consegue conciliar música alegre e vibrante com a saudação à religiosidade africana tão característica da escola. É uma pancada!

Sidnei de Pilares, Jorginho Moreira, Zequinha do Cavaco e Professor Laranjo

Esta parceira tem como característica uma grande qualidade melódica. Seus sambas sempre trazem desenhos musicais agradáveis. Desta vez eles acertaram em cheio, especialmente na parte final do samba. O trecho que vai do verso "Vem se banhar amor" até o final do refrão é de uma felicidade incrível. É para embalar a escola, mexer com a arquibancada e algo mais: para levantar poeira.

A letra é correta e procura fugir da citação de todos os pormenores do enredo, fazendo uma leitura mais abrangente dos setores. Vai dar trabalho!

Tom Tom, Marcelo Guimarães, Lopita, Jorge Augusto e Veni Vieira

Outro refrão "arrasta povo", que convoca o público a cantar... "Embala eu babá". Também é precedido por um trecho muito bem feito, até emotivo, mas que se difere dos anteriores por seu tom mais nostálgico do que alegre "Oxum, a deusa do encanto, estende seu manto".

É um samba mais cadenciado, mais chegado ao estilo melódico que a escola pretende ou pretendia deixar para trás. Tem versos mais longos e nem tão objetivos na descrição do enredo. Se fosse apresentado um ano atrás seria até favorito. Como a escola quer mudar, a parceria precisa se superar para chegar à vitória.

Amendoim do Samba, Renato Moraes, Sormani, Dimenor da Beija-Flor e Serginho Aguiar

Depois de alguns anos na Mangueira, Amendoim volta à sua casa. E volta com um belo samba, encorpado, de passagens melódicas agradáveis e originais, além de uma letra descritiva.

Destaque para a musicalidade dos trechos "E no Egito o banho se originou", "um banho de rosas provoca prazer", "a força da arruda e da guiné lavando toda a avenida".

Faltaram, entretanto, a leveza e a alegria pedidas pela direção da escola. O samba carece também de um pouco mais de fluência melódica. Alguns versos, muito grudados, dificultam a respiração do componente na hora do canto.

Ribeirinho, Miguel Menezes, JC.Coelho, Domingos P.S e Tino Ayres

Destaque para o refrão principal, que tem uma construção muito interessante. Merece aplausos a tentativa de fugir do esqueleto "refrão / primeira / refrão / segunda".

Tem melodia fluente e boa para o canto. Letra descritiva, sem grandes achados. Falta um toque diferencial, um grande momento de explosão ou beleza. Fica na média.

Picolé da Beija Flor, Dr Rogério, Dom Beto, Samir Trindade, André Freitas

Bom refrão final. O resto do samba é apenas correto. Se perde na letra, pouco objetiva, e em passagens de melodia sem fluência.

Adilson China, Bello, Anchieta e Adão Motorista

Fluente e descritivo. Melodia morna e letra dentro do enredo.Não empolga.

Sem inocência

A Inocentes de Belford Roxo subiu de grupo e subiu também o nível da sua safra de sambas-enredo. Além dos campeões do ano passado a escola ganhou pelo menos outras duas parcerias com nível suficiente para representá-la no quesito. Não sei se há outras obras neste patamar em disputa, pois há poucos sambas disponíveis na Internet.

Cláudio Russo, Carlinhos do Cavaco, J.Veloso, Totonho e Tem Tem

Padrão Cláudio Russo de qualidade: letra inteligente, melodia elaborada, vocabulário diferenciado. Características que vêm transformando esta parceria na mais forte "fonte" de sambas do grande Rio.

Os autores acertam em cheio ao abrirem o refrão principal clamando por educação. Eles desfilam qualidade poética ao longo de todo o samba, que descreve a história de Brizola com requinte e beleza.

O ponto menos forte é o refrão do meio, pouco popular e sem um diferencial melódico.

Dominguinhos do Estácio, Cássio e Gilberto Gonçalves

Apresenta uma alternativa interessante à obra dos atuais campeões. É um samba mais focado na emoção da melodia do que na qualidade de sua letra. Não que a parte poética seja ruim, pelo contrário, ela serve perfeitamente à proposta de valorizar a música.

Suave, fluente, cativante, com momentos originais como o refrão central, que fala do Rio de Janeiro, este samba possui uma força harmônica muito grande e pode impulsionar os componentes a um desfile mais lírico.

Os versos finais da segunda parte "a sua luz há de chegar em cada coração / que agradece em forma de oração / nesta festa popular" constituem o ponto alto da obra. Já o refrão final deixa um pouco a desejar. Falta a ele um diferencial na hora de arrematar o samba.

Billy Conty, Licinho Jr, Marcelinho Santos, Edispuma, Abílio Mestre-Sala e Alex Bahia

Tem nos refrãos sua grande força (especialmente o principal). São alegres, vibrantes e com a dose certa de emoção. O samba como um todo é valente, "pra frente", e bom para o canto da escola. Sua letra é correta e conta a história de forma inteligente, embora sem o brilho do primeiro concorrente avaliado.


| 18 Comentários | Topo


E como faz samba...

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 17/09/2008 14:52:52

A verde e branca de Ramos tem mostrado um equilíbrio muito grande em sua ala de compositores nos últimos anos. Talvez seja a escola que promova o maior "rodízio" de parcerias vencedoras. Há sempre uma disputa acirrada que a comunidade vem tendo a primazia de decidir.

A história tende a se repetir neste ano. Não há um samba que se destaque sobre seus concorrentes e até as parcerias menos famosas estão num nível parecido com as tradicionais vencedoras. E os "gresilenses", o que dirão?

2 - INÁCIO RIOS, TIAGO MARTINS, EDUARDO MENDES, PROF. NEWTÃO

Melodia suave, emotiva, agradável: não tem momentos de grande empolgação, mas é propícia ao canto. A letra é simples e direta, sem arriscar grandes vôos. Destaque para o refrão central que consegue fazer referência melódica a alguns dos grandes sambas da escola sem cair no plágio, dando um toque de nostalgia muito agradável.    

3 - BILL AMIZADE, EDU BRASIL, ISAMEL CASTRO, ALEXANDRE VIDAL E ALIOMAR

Samba valente, alegre, moleque. Melodia construída de forma a "empurrar" o componente na avenida. Casa com o estilo poético que é didático, claro e festivo. 

5 - DENIR LOBO, FRANK, EDSON LUIS, LUCAS E MARCIO CUNHA

É o que muita gente costuma chamar de "samba-enredo de verdade". Embora eu não concorde com a discriminação a outros estilos de samba, confesso que gosto muito deste jeito de compor. A melodia vai crescendo gradativamente de maneira bem encadeada e envolvente. É excelente para o canto dos componentes. Letra inteligente e poética, na medida para a melodia. Destaque positivo para o refrão central. O final poderia coroar a obra com mais garbo, embora não seja ruim.  

8 - CARLOS KIND, DI ANDRADE, VALTENCI, JORGE ARTHUR E JOSIMAR

Como sãos os autores do melhor samba de 2008 a cobrança sempre é maior. É forte concorrente porque tem momentos emocionantes, especialmente na primeira parte quando fala sobre o bairro de Ramos. Consegue mesclar emoção e alegria em boas doses. Tem belas sacadas poéticas como no verso "em nossas veias correm notas musicais".

Há, entretanto, altos e baixos na construção melódica - que não consegue manter o mesmo nível durante toda a obra: o final da primeira parte e o refrão principal caem no lugar comum. A interpretação de Luizinho Andanças é covardia. Ele dá um show e supera qualquer dificuldade.  

11 - FLAVINHO, HENRIQUE CÉSAR, XANDE, AUGUSTO E TIÃO PINHEIRO

Mais um bom samba, de refrão alegre e letra correta. Fala de quase todos os títulos da Imperatriz e tem melodia bem construída, que facilita o trabalho da harmonia. A obra mantém a regularidade ao longo de todos os versos.   

15 - ARMÊNIO POESIA, FREDY VIANA, MAURÍCIO PAIVA, OTTO E CARLINHOS DA PENHA

É, de longe, a letra mais elaborada da disputa. Os autores conseguiram incluir referências a várias passagens do enredo sem que estas se tornassem "charadas poéticas"*. Quem conhece a história identifica a citação e quem não conhece não fica se perguntando o que aquilo significa.

Por exemplo: o verso do refrão que diz "Aprendi a sambar e ser feliz nos braços da Imperatriz" remete ao samba exaltação Rainha de Ramos, que diz "Quem não sabe o que é o amor, não sabe o  que é ser feliz; quem não sabe o que é sambar, não sabe o que é Imperatriz". É sutil, bonito e compreensível para o leigo.

Há vários trechos merecedores de citação como "Em Ramos se acendeu ainda criança", "desci na estação da lembrança", "proclamei o meu lugar coroando com respeito o meu dom de imperar" e "o ouro em detalhes floresceu no verde e branco da minha bandeira".

A melodia é valente, pra frente, mas carece de maior regularidade. Há passagens musicais que não apresentam o mesmo nível da letra. O trecho "Liberdade, liberdade", que abre a segunda parte é o melhor exemplo disso.

16 - MARQUINHO LESSA, MANINHO DO PONTO, JORGE XAVIER E TUNINHO PROFESSOR

A dupla Tuninho Professor e Marquinho Lessa, através de seus sambas, embalou os dois últimos anos do tricampeonato Leopoldinense (e também o terceiro lugar de 2002). Época em que Paulinho Mocidade fazia sua primeira passagem pela escola. Agora eles não têm mais a companhia de Guga, recompensada pelas entradas de Maninho do Ponto e Jorge Xavier na parceria. 

É o casamento de um bom melodista com um bom letrista. Deu um samba alegre, valente, raçudo - bom para desfile. O destaque principal é a segunda parte, toda muito bem construída. Os versos que vão de "Com ela, cantei lalauê" até "só quer mostrar que faz samba também" compõem uma verdadeira aula de como escrever um samba-enredo.

Pena que esta inspiração não seja mantida ao longo de toda a obra  (seria imbatível). Há outras passagens interessantes, mas não em sequência como neste trecho. A letra descreve o enredo de forma linear, inteligente e emotiva. Escrita em primeira pessoa, ela procurar traduzir o sentimento do torcedor da escola - no que não consegue ser acompanhada pela melodia que é mais festiva que sentimental.

24 - JEFFERSON LIMA, VENEZA, ME LEVA, DHIEGO MOURA E GUGA

A primeira parte (que conta a história do bairro) é uma obra-prima. Lirismo, sensibilidade, num casamento perfeito de letra e melodia. Sensacional.

Acontece que o samba não cresce, não se desenvolve. Mantém o mesmo padrão melódico o tempo inteiro. Isso tende a causar um certo cansaço no ouvinte, no desfilante. É preciso ter momentos de mais empolgação para alternar com a emoção. É bonito, mas falta algo.

O requinte poético da primeira parte também não se mantém no resto do samba, que tem letra apenas correta. 

PROGRAMA PIONEIRO...

Lançamos na última sexta-feira o primeiro programa da Rádio Tupi feito exclusivamente para a internet, o Tupi Carnaval Total. Está disponível no site da rádio (www.tupi.am/carnaval/carnaval.aspx). Há depoimentos de todos os candidatos à prefeitura sobre o que pretendem fazer quanto ao desfile das escolas de samba; uma bela entrevista com o único autor vivo de "A lenda das sereiras..."; um compacto da nossa transmissão do desfile do Império em 2008 e muito mais.  

O programa será semanal e é apenas o primeiro passo da equipe Tupi no sentido de gerar conteúdo exclusivo para a Internet. Em breve, muito breve, outras surpresas serão reveladas. No site da rádio também ficam disponíveis os áudios de todas as matérias veiculadas na programação da emissora. É um projeto que eu, o marcos Frederico e o Tiago Alves estamos tocando com muito carinho e empenho. Tenho certeza que você irá gostar.


| 11 Comentários | Topo


Ainda Estácio

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 11/09/2008 11:49:18

Fui conferir os comentários do meu último texto e fiquei chateado com o rumo que a coisa tomou. Não gostaria que o espaço fosse usado para acusações entre as parcerias e ofensas inúteis. É lamentável que as pessoas não saibam lidar com a democracia e se escondam por trás de codinomes para provocar discórdia. O debate é interessante desde que se limite às questões inerentes aos sambas e não seja rebaixado a briguinhas menores.

Quanto ao samba número nove, já escrevi minha opinião nos comentários, mas repito aqui em meu espaço para que não haja dúvida quanto à autoria: é um samba redondo, pra frente, de letra correta sem ser brilhante. Tem como ponto alto o final da segunda parte "Hoje desfilo em nova passarela...". Bem cantado e embalado por uma torcida animada, pode render bem na quadra, pois tem pegada e andamento valentes. Imagino que seja o que está acontecendo devido aos pedidos.

Mudemos, então, o texto original e coloquemos: há oito sambas com chance de vitória.

IMPERATRIZ NO FORNO

Os muitos afazeres estão me impedindo de terminar a análise dos sambas "gresilenses". Prometo terminá-la até o final da semana.


| 11 Comentários | Topo


Estácio de Sá: Recompondo a ala

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 04/09/2008 16:35:24

Depois de três anos castigada por reedições a ala de compositores da Estácio está se recompondo com altivez. Já no ano passado a escola teve pelo menos quatro sambas num nível parecido. É perceptível a evolução para 2009. Há sete sambas com chances de vitória. 

Há algumas diferenças entre eles, mas a quadra pode desfazer o desequilíbrio sentido nas gravações. Algumas parceiras investiram mais que outras nos estúdios o que pode deixar uma impressão equivocada de superioridade. 

A análise abaixo segue a numeração oficial da disputa. 

2 - Alexandre D´Mendes, Marechal, Edu Brasil, Aldir Senna e Bira da Globo

Samba alegre, "pra frente", de letra resumida. Deve funcionar muito bem na quadra. Procura facilitar o canto dos componentes, com notas altas e divisão bem espaçada. Não possui, entretanto, um diferencial de poesia ou melodia, um toque extra que o faça brilhar. 

5 - Magrão, Betinho Santana, Luis Fernando, Reginaldo, Pezão, Silvano, Buru Falado, Silvinho e Jefferson

A decisão de fazer o refrão todo em cima de Chacrinha pode dar a idéia errada do que é o enredo. O "velho guerreiro" é apenas uma passagem dentre tantas outras que ganharam menos destaque na letra. A poesia descreve a história da Chita com leves deslizes que não comprometem o todo. Melodia tradicional, fluente, correta, boa para o canto dos componentes - mas sem inovação. 

8 - Osmar, Antonio da Conceição, Magu, Marcelo Buda, Neneu, Hugo Bruno e Lucio Moraes

Belíssima melodia: encorpada sem deixar de ser valente; refinada e ao mesmo tempo alegre. Tem momentos absolutamente originais, o que é sempre bom de ouvir. A letra é descritiva e direta, sem usar de metáforas ou imagens poéticas. Peca apenas por deixar de citar com clareza a tal participação da Chita na democratização do país. Samba de gente grande, sem arestas, sem escorregões.

Vale ressaltar a perfeita interpretação de Nino do Milênio, garoto de Belford Roxo que em breve será um nome conhecido no mundo do samba.   

10 - Wanderley, Rogerão, Robson Ramos, Rafael, Sergio Careca e Gatto

É um samba de avenida, com força melódica e sem correria. Entretanto, faltou fôlego à criatividade dos autores que não conseguiram manter o mesmo nível em toda a obra.   

O refrão principal, por exemplo, começa muito bem ("Esse colorido estampado em seu olhar"), mas se perde a partir do terceiro verso. O mesmo acontece com a segunda parte do samba: quando promete engrenar ("Profano, sagrado, vestiu sem distinção / Do hippie ao Velho Guerreiro"), a inspiração cessa e o samba cai no lugar comum. 

12 - Claudinho Raiz, Niquinho Azevedo, Wagner Cristal, Luis Sapatinho, Tio Gil, Paulinho Costa e Valença

Excelente refrão final. Descreve parte do enredo, é alegre, gostoso e fácil de cantar - o melhor trecho do samba. A obra como um todo é de excelente nível: valente, guerreira e de letra correta. Conta a história de forma objetiva e clara, apesar de, em alguns momentos, usar recursos "batidos" para provocar empolgação como a expressão "Tô que tô".

Precisa de alguns pequenos ajustes melódicos no verso inicial da segunda parte, que lembra demais o samba sobre o SAARA da própria Estácio. Deve ser um dos bons momentos das noites de eliminatórias na Salvador de Sá. 

13 - Thiago Daniel, Dilson Marimba, Diego Nicolau, Marcelo Motta, Diego Tavares e André Fullgaz

Que refrão! Uma pancada! O samba tem uma musicalidade muito forte, especialmente na sua primeira parte, entremeada por variações de entonação muito bonitas, que se casam bem com a poesia. É com certeza a letra mais refinada da safra, buscando a linguagem indireta em várias passagens para ganhar em lirismo. É certamente um diferencial.   

A melodia, muito alegre, perde um pouco a força no refrão do meio (sem a mesma pegada do final) e na segunda parte, ligeiramente acelerada - mas que não deixa de ser bem construída e agradável. Depois volta a crescer com uma boa preparação para a explosão final.  

16 - Caixa D´água, Alexandre Fernandes, Peralta, Rafael, Arnaldo, Roberto Naval e Juvenil

Caixa D´água e Alexandre Fernandes foram campeões na Portela em 2003 em parceria com a atual presidente da Estácio, Lilian Martins. Mas vão precisar trabalhar bem na quadra para que a ex-parceira lhes dê a vitória. A gravação está abaixo da média daqueles que têm alguma chance de vitória. Isso dificulta uma melhor análise da obra - que perece ter seus méritos, mas soa apenas correta. 

O ponto alto está na melodia da segunda parte que tem variações interessantes. A letra é sensível e inteligente embora deixe a sensação de uma ausência de rima no verso final.


| 82 Comentários | Topo


Interagindo em busca do equilíbrio

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 30/08/2008 20:12:33

Estou achando interessante este "bate-papo" que surge a partir dos meus comentários sobre os sambas concorrentes. Tem gente que concorda porque elogiei determinado samba. Tem gente que discorda porque critiquei ou deixei de citar algum outro. Tem torcedor apaixonado pela escola que se revolta porque não entende que a crítica não é para instituição. Nunca será. Tem até gente envolvida diretamente no processo que tem a humildade de assumir que está acompanhando e escreve tecendo algum comentário. 

Gente como o Celso Rodrigues, que é presidente do Conselho de Carnaval da Mangueira. Homem que respeito demais pela coragem de assumir um trabalho dificílimo e gigantesco. E que, tenho certeza, faz o melhor pela escola enfrentando muitas dificuldades. Ele compreendeu minhas palavras e, mesmo discordando, as respeitou. Obrigado, Celso. 

O compositor Helinho do Salgueiro também escreveu e reclamou de eu ter chamado sua parceria de "pessoal do pagode". Ele acha que "pagodeiro" é um termo pejorativo. Caro Helinho, não foi minha intenção segregar vocês, pelo contrário. Reunir nomes de sucesso no meio musical como você, o Grupo Revelação, e Pedrinho da Flor é, para mim, um ponto a favor. São profissionais da música que conhecem melhor do que a maioria a arte da composição e o sucesso. Desculpe se o texto permitiu esta interpretação. 

O intrépido JCN, experiente cronista carnavalesco com sangue verde e rosa, também deu o ar da graça. Ele me cobra uma explicação quanto à diferente avaliação que fiz do Salgueiro em relação à Mangueira. Se o questionamento é apenas em relação ao título, esclareço que na matéria do Salgueiro ele deveria ser "A quadra vai decidir", mas por alguma falha de comunicação acabou saindo "Análise dos sambas do Salgueiro". De qualquer forma me permito - com muito respeito e admiração - discordar do amigo quanto ao fato da Mangueira "estar sempre acima do bem e do mal quando o assunto é samba-enredo". A instituição está sim neste patamar, mas seus sambas-enredo não são infalíveis. Nem os da Mangueira, nem de nenhuma escola. 

Quanto aos que criticam a iniciativa de comentar os sambas concorrentes, é importante ressaltar que o exercício da crítica é antigo no jornalismo. Talvez seja novo o fato de fazermos com o mundo do samba o que já se faz há anos em outros segmentos artísticos (vale lembrar que já desenvolvi este trabalho por pelo menos cinco anos em outro endereço). A maioria dos sambistas não está acostumada com tal processo. Faz parte do desenvolvimento da imprensa carnavalesca especialmente através deste veículo tão novo que é a Internet. 

Transcrevo abaixo um texto de Marina Rosas sobre a crítica no jornalismo que se encaixa como uma luva na questão. 
 
"No início do jornalismo brasileiro, quando o público dos jornais e dos produtos culturais era o mesmo, a crítica tinha um papel de analisar esteticamente a literatura, a música e as artes plásticas. Era um trabalho bem mais elaborado e que requeria muito tempo. Mas a imprensa evoluiu, seu alcance aumentou e a oferta no mercado cultural também, com isso, o papel da crítica mudou.
 
Hoje as resenhas que são publicadas nos diversos meios de comunicação em massa estão voltadas para uma orientação do que é bom ou não. Ou seja, define o que os "consumidores de arte" devem ou não assistir, ler e ouvir. Na verdade, cabe ao leitor saber selecionar as informações que lhe são passadas levando em consideração quem escreveu e onde foi publicada.
 
Segundo Todd Hunt, uma crítica bem feita deve: fazer um breve comentário sobre o contexto histórico ou estético em que a obra esteja situada; depois deve analisar a obra destacando seus acertos e suas falhas; e por último deve dar sua opinião embasando-a. É claro que ao longo do seu texto, com a escolha das imagens, dos argumentos e das palavras, o jornalista já vai deixando bem claro o que pensa a respeito do que escreve.
 
E é exatamente por ser um gênero mais opinativo que explicativo, é que a crítica jornalística se torna tão polêmica. Por ser publicada em meios que estão cheios de outros tipos de informação, por ter pouco espaço, ela deve ser forte e consistente. Muitas vezes os jornalistas são duramente julgados por isso, mas como já diria um dos primeiros críticos do Brasil, Machado de Assis, "A crítica não é uma profissão de rosas. e se o é, é-o somente no que respeita à satisfação íntima de dizer a verdade". 
 
Enquanto a crítica sofre com críticas, ela segue com um dos seus mais importantes na atualidade, a divulgação das artes!"
- Marina Rosas

Em breve teremos textos sobre os sambas da Estácio e da Imperatriz. Quem achar que vale a pena poderá voltar aqui para ler.


| 22 Comentários | Topo


Análise dos sambas do Salgueiro

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 26/08/2008 14:24:12

O Salgueiro, mais uma vez, tem uma boa variedade de obras para escolher. Fruto da renovação de sua ala de compositores mas, principalmente, de um enredo simples, com essência e bem escrito.

O texto facilitou o entendimento de todos os compositores. Não há viagens, elocubrações, nem situações difíceis de serem explicadas. Pelo contrário, há espaço para criação e um vocabulário repleto de palavras com sonoridade interessante, que valorizam a musicalidade. 

Há uma grande quantidade de sambas num nível muito próximo a estes que vou analisar e poucos são aqueles que vão "encher o saco" do público na quadra. O equilíbrio é tão grande que um dos que eu havia escolhido para comentar já foi eliminado.

O desempenho na Silva Teles, a cada eliminatória (e também na final), será decisivo. Ali a diretoria vai sentir quem melhor se encaixa na bateria, quem mais agrada à comunidade e quem mais se aproxima da proposta de desfile. A ordem da análise segue a numeração oficial da disputa. 

Guilherme Sá, Luizinho Professor, Dartagnan do Salgueiro, Mauro Esperanza e Márcio do Swing

Tem nas suaves e refinadas variações melódicas seu ponto alto. As mais bonitas são na passagem da introdução para a primeira parte do tema ("cantar e revelar o encanto") e na abertura da segunda parte do samba ("tem candongueiro no jogo e caxambu"). À exceção do refrão final a música flui sem grandes quebras o que ajuda o canto dos componentes. A letra é inspirada e casa com a emoção da melodia, formando uma obra de alto nível.

O refrão do meio é excelente e tem um balanço muito interessante, fruto de uma divisão diferenciada na melodia. O refrão principal, entretanto, parece um tanto travado e sem força, talvez em virtude do seu jogo trançado de rimas e do excesso de sílabas no verso "pulsa na força do pavilhão."
 
Vai precisar mostrar na quadra que a melodia, em tom emotivo e romântico, se encaixa no jeitão alegre do salgueirense.

Dudu Botelho, Marcelo Motta, Luiz Pião, Muhammad e Tico do Gato

A Parceria bi-campeã aposta na manutenção de um estilo técnico que deu certo: o equilíbrio entre a empolgação e a cadência. Em 2007 e 2008 esta proposta rendeu bons desfiles à escola. É um samba pra frente e alegre, mas sem correria. A melodia é fluente e no tom certo para o cantar dos componentes.

Os refrãos são muito fortes, como a escola gosta. O segundo deles traz consigo uma proposta poética interessante ao comparar o coração com o tambor. E o intermediário tem pegada e suingue na medida certa.

A letra é correta, sem grandes invenções. Não gosto do verso "o batuque é festa e adorações". Não bate bem no meu ouvido, mas também não compromete o todo da obra que, com certeza, é uma das mais fortes favoritas.

Edgar Filho, Simas, Beto Mussa, Gari Sorriso e Bené do Salgueiro

Nem melhor nem pior. Apenas...  O samba desta parceria se encaixa no slogan salgueirense. Há tempos venho pedindo que as escolas dêem chance a sambas diferentes, que ousem sair do lugar comum. Este samba é para arriscar, marcar, para fazer história - mesmo que não leve à vitória.

Ele consegue juntar uma letra com início, meio e fim - perfeitamente encadeada - com uma melodia lindamente construída e tradicional, que remete a carnavais passados sem ser ultrapassada. Um casamento maravilhoso que gerou um dos sambas mais interessantes do ano.

Destaque positivo, entre tantos, para a o refrão central ("festa na aldeia, lua cheia um clarão...") cuja melodia se encaixa na fantasia da letra de maneira a levar o ouvinte a imaginar a cena. 
 
O ponto negativo é o refrão final. Não gosto dos versos "menina quem foi teu mestre" (muito atropelado) e "um batuqueiro" (melodia simplista demais perto do resto do samba). É necessário subir um pouco o tom do trecho "meu ancestral" (quase impronunciável) e fazer o mesmo em alguns versos da segunda parte que além de baixos quase embolam tamanha a quantidade de sílabas em uma única frase musical (isso compromete o canto dos componentes).   

Josemar Manfredini, Betinho, Michel de Pilares, Miudinho e Líbero

Talvez seja a gravação mais "afiada", com mais cara de quadra de Salgueiro. Os autores contrataram o intérprete (Ito Melodia) que mais se assemelha ao titular da escola e com isso mostram que a obra pode ser interpretada por ele sem dificuldade. A bateria é a que melhor reflete a realidade de quadra e avenida. 

É um samba alegre, valente, fluente e de letra fácil. Tem refrãos fortes que devem produzir efeito devastador na quadra. Mas não traz qualquer novidade melódica ou poética, reproduzindo um estilo que marcou a escola por muitos anos.   

Moisés Santiago, Paulo Shell, Leandro Costa e Tatiana Leite

Outro forte concorrente. Tem melodia mais trabalhada e encorpada do que anterior, mas também possui "pegada" e alegria - embora não apresente inovações. É um samba muito bom para a harmonia do canto. Gosto muito do refrão final, valente e guerreiro, que talvez seja o melhor da disputa. A letra é correta, objetiva e simples.


Adalto Magalha, Andrezinho, Ferreira, Gabriel Moura e Jorjão

Adalto tem história de vitórias na casa. Andou afastado, pelas bandas da Tradição, e agora retorna. O samba que apresenta é alegre, fluente e de melodia agradável. O momento mais interessante é a citação a mestre Louro. É o concorrente que aborda a homenagem de forma mais direta, falando o nome do antigo mestre de bateria da escola ("a bateria não esquece de você, Lourival"). Essa intimidade, como numa conversa com Louro, é emocionante e faz a diferença. Os refrãos são fortes, com a cara da escola.
   
M.André, Walkir, Grassano e Aranha

Depois de um carnaval como presidente da União da Ilha, Márcio André volta ao ofício original de compositor. Bom para o carnaval. Sempre sai coisa boa quando ele escreve - sem desmerecer os parceiros.

Além de ser corretamente construído, como todos os que estão citados aqui, este samba tem momentos diferenciados e de alto nível. Começando pela "cabeça" diferente e sensível "Mãe natureza... cede-me tuas peles e madeiras", passando pelo refrão central que se encerra com uma frase melódica inusitada "a fé sagrada é" e pela emotiva preparação para o refrão final que diz "... é fevereiro já ouço o tamborim e o pandeiro" e culminando com um refrão principal de pegada e força melódica, sem perder a alegria.

Helinho do Salgueiro, Xande de Pilares, Pedrinho da Flor, Mauro Jr. e Zé Domingo

O samba do pessoal do pagode é bom. Tem melodia, tem suíngue, tem força harmônica. Destaque para o verso inicial do refrão "Ecoa meu tambor" e para o refrão central "Rufa o tambor que eu sou de arerê...".

Não me bateu bem a palavra "hospitaleiro". Não é o termo mais preciso para definir mestre Louro, embora ele tivesse esta qualidade. Dá a impressão de ter sido encaixada mais pela métrica do que pelo significado. Há também algumas soluções melódicas previsíveis.


| 72 Comentários | Topo


Parte II: A safra mangueirense

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 22/08/2008 19:00:43

Outro dia mesmo estava eu aqui exaltando a importância da interatividade que a internet proporciona. Os leitores servem como uma espécie de termômetro daquilo que a gente escreve. É fundamental que tenhamos este retorno para sentir se estamos no caminho certo ou errado. Meu texto sobre a safra mangueirense é um exemplo disso. 

Não posso achar que sou o dono da verdade e ignorar as opiniões - desde que sejam emitidas com respeito. Alguns, movidos pela paixão, extrapolam, levam a coisa para o lado pessoal e até levantam suspeitas infundadas. Tudo bem, faz parte do processo e só acontece com quem dá a cara a tapa. Se eu só elogiasse todo mundo ia ficar feliz.

Mas, lendo os comentários e relendo meu próprio texto, reconheço que fui mais duro do que devia com os compositores mangueirenses. Talvez não tenha encontrado a palavra certa para expressar minha decepção com a média dos sambas. "Sofrível" é realmente um exagero. Por isso - sem vergonha de admitir um erro - peço desculpas aos compositores da verde-e-rosa. 

Esclareço que a decepção ocorre quando a gente espera algo muito bom. E a Mangueira, nos últimos anos, teve lindos sambas e ótimos concorrentes. Por isso eu esperava mais. A gente só cobra de onde sabe que pode vir coisa boa. 

Os que imaginaram haver algum tipo de perseguição à escola são os que não me acompanham há mais tempo. Já elogiei a verde-e-rosa inúmeras vezes. No ano passado, quando o mundo desabava sobre a Mangueira, eu fui um dos poucos que a defenderam. Respeito e admiro demais a história mangueirense e me orgulho de ter sido homenageado pela direção numa recente feijoada através de uma linda placa que guardo com muito orgulho.

Isso, entretanto, não me impede de encontrar problemas numa sinopse ou numa safra de sambas. Meu dever como cronista para com meus leitores é expressar minha opinião, seja qual for. E minha opinião não é a verdade absoluta. É apenas minha opinião. Há os que concordam e os que discordam. E isso é ótimo!

Alguns leitores sugeriram que eu analisasse outros concorrentes. Um deles foi meu grande amigo Serginho que tem o coração verde-e-rosa e mora no Palácio do Samba. Em respeito a ele e aos outros que o fizeram com respeito, vou comentá-los. Quero deixar claro que ouvi todos os que têm áudio na internet mais de uma vez, atentamente. Mantenho minha opinião sobre os que mais se destacam. Se vão para a final ou não é outra história. 

Não posso analisar todos os sambas de todas as escolas e nem visitar todas as quadras por isso vou continuar selecionando pelas gravações os que, no meu ponto de vista, mais agradam. A quadra faz diferença sim: no acerto do tom, no encaixe com a bateria, na presença da torcida, na repercussão entre os componentes. Mas não muda a concepção artística do samba. Pode ser decisiva quando a coisa é parelha, muito nivelada. Por isso dificilmente vou citar apenas um samba de uma escola de samba, mas sim aqueles que, imagino, vão para esta briga nos terreiros.

Celso Tropical, Catranca, Marcelo Santa Clara e Partidinho

A letra procura fugir do lugar comum da maioria de seus concorrentes. Usa vocabulário diferenciado e tem uma leitura própria do tema. Ponto para os autores.

A melodia é cadenciada e repetitiva, embora possua alguns bons momentos. Foge demais do padrão que a escola vem adotando nos últimos anos. O tom escolhido para a gravação talvez tenha sido alto demais, o que dificulta a interpretação até do excelente Davi do Pandeiro e uma melhor percepção do que o samba pode render.

Índio da Mangueira, Luisinho Oliveira, Daniel do Riachuelo, Beto Savanna

Tem uma boa construção melódica que busca soluções diferentes para a extensa letra sem soar repetitiva. Destaque para a primeira parte que é fluente e fácil de cantar. Não apresenta, entretanto, propostas musicais inovadoras, ousadas. É um samba conservador e extremamente pesado para as necessidades técnicas (evolução e harmonia) dos desfiles atuais.

A letra também está repleta de lugares comuns, a partir do verso inicial "Luz divina ilumina o nosso caminhar / Apoteose está em festa / É carnaval vem festejar". 

Paulinho Rocha, Vicente Felisberto e Fininho

É um samba tipo anos setenta. Nostálgico, encorpado. Em alguns momentos romântico. Tem bons refrãos.

Se perde em sua extensão, principalmente na segunda parte que faz a melodia ser às vezes confusa, e na letra ingênua.

Eraldo Caê, Paulo de Carvalho, Diego Cabral e Bitú G-Sé

Destes quatro é o que mais se aproxima dos meus preferidos. A segunda parte e o refrão final têm cara e pegada de Mangueira na avenida. 

Destaque para o trecho melódico "A imigração de gente nova que no sul vem aportar/ E que renova um ciclo, um lugar/ Vem trazendo esperança/ Verás que um filho teu não foge à luta/ Transformando em realidade/ Um sonho cheio de brasilidade". É bonito, gostoso de cantar e fluente. O refrão final também é alegre e mexe com o povo.

O problema está na parte inicial do samba. Burocrática em poesia e melodia, ela desequilibra a qualidade da obra. O refrão central também não tem qualquer atrativo. Simplesmente está ali para "cumprir tabela". Na comparação inevitável com os mais fortes concorrentes fica um pouco atrás.


| 27 Comentários | Topo


Decepção na safra mangueirense

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 19/08/2008 15:34:01

No ano passado, a verde-e-rosa teve uma das finais mais bonitas do carnaval. Os quatro sambas finalistas eram de alta qualidade e poderiam representar a escola na avenida. Para 2009 a história é bem diferente. A safra é sofrível e a diretoria dispõe de pouquíssimas opções. Acredito que o enredo repetitivo e a sinopse por demais confusa e extensa foram decisivos para isso. 

Outro fator que colabora para a diminuição da quantidade de boas obras é a junção de três eventuais parcerias. Lequinho e Gilson Bernini, que polarizaram as últimas disputas, se uniram e ainda acolheram o recém-chegado Gusttavo Clarão. Já escrevi sobre isso antes: pode ser bom para eles, mas é péssimo para a agremiação. Se o resultado desta parceria não for dos melhores a escola se vê em maus lençóis.

Dos sambas que possuem seus áudios disponíveis na internet, três aparecem com fôlego para disputar a vitória. São os que analiso abaixo.

Lequinho, Jr.Fionda, Gílson Bernini e Gusttavo Clarão

Aconteceu o que eu previ. Como num time de futebol, "muito craque junto às vezes atrapalha". Alguém sempre se intimida ou tem que ceder em função do colega. Dificilmente o talento de todos aflora. 

O samba fruto da junção de parcerias é um reflexo deste processo. Sou fã de cada um deles e sei do potencial criativo destes grandes nomes, mas sou obrigado a reconhecer: a obra está abaixo do que cada um produziria isoladamente. 

Não é um samba ruim, entendam. É apenas correto e fluente - "padrão básico". Falta a ele o "algo a mais" que todos esperamos destes compositores. A letra é composta por chavões e soluções óbvias e a  melodia, embora muito animada, segue o mesmo caminho da falta de ousadia e criatividade. Acaba se destacando na baixa média da escola e se transforma num dos grandes favoritos, pois deve contar com uma "mega-estrutura" de quadra.

A excelente qualidade da gravação passa um clima de animação muito grande e encobre eventuais problemas. Poderia ter um andamento mais lento para que pudéssemos sentir melhor a melodia.  
 
Marcus Moniz, Renan Brandão, Machado e Marcelo Nunes

A parceria do inesquecível refrão "Então não chora Pierrot" (2008) não produziu para este ano uma passagem tão bonita quanto aquela. Mesmo assim conseguiu fugir do lugar comum na poesia e gerar a melhor letra da safra mangueirense. 

Os autores mostraram grande sensibilidade artística para contar de maneira diferente uma história que já estamos cansados de ouvir. Ser poeta é isso: buscar o diferente, o novo, sempre com beleza. Versos como "Brasil, no plural se tornou singular", "um dia o sonho migrou", "Pátria que sorri ao chorar" e "Mangueira, tradução mais singela" são exemplos de uma letra que vai além da sinopse e busca sua própria maneira de contar a mesma história. 

A melodia mantém o estilo do ano passado. É cadenciada e densa, sem deixar de ser fluente. Possui passagens bonitas e é fácil de cantar em desfile. Não apela para a animação fácil. É uma espécie de resistência consciente.Talvez por isso encontre rejeição por parte de alguns segmentos importantes. 

A aposta dos compositores não é na alegria, mas sim na emoção do mangueirense, o que se comprova no verso "Sou a força da paixão que cresce na dor". A indignação com o que aconteceu no ano passado, aliás, vai além e gera um verso que soa como uma bronca na própria escola e que poderia ser evitado: "Mangueira... tem um nome a zelar". 

David Corrêa, Marcelo D'Aguiã, Rosemar da Mangueira e Bizuca

Mestre é mestre. Mesmo sem fazer sucesso recentemente David Corrêa mostra que ainda tem o dom de criar. Ele volta à escola em que produziu seu último "hit" (Atrás de verde e rosa só não vai quem já morreu) com um samba tipo "arrasta povo", que pode desbancar os favoritos.

A grande proeza da obra é respeitar a batida da bateria da escola. Na gravação já fica claro que a melodia se encaixa de forma suave nos cortes característicos dos surdos da verde e rosa. Isso promete fazer a quadra balançar especialmente no refrão principal. 

Ele (o refrão) se utiliza da batidíssima fórmula da resposta ("A Mangueira é... guerreira"), mas com uma divisão diferente e gostosa. O verso "respeite o meu tamborim" é um dos lugares do samba onde se percebe a diferente musicalidade de David. Assim como em "o homem branco também bate tambor", em "Sertanejo, pantaneiro, repentista, sanfoneiro, boiadeiro cantador" e em  "visão de um sonhador". Acordes e entonações que alegram quem está acostumado com sambas quadradões montados sobre soluções melódicas e harmônicas previsíveis.

O samba, entretanto, está longe de ser uma obra-prima. Tem quebras repentinas de melodia em alguns trechos e rimas quebradas "aqui e ali". A letra procura fugir do "detalhismo" descritivo, mas carece de maior requinte poético em algumas passagens.


| 51 Comentários | Topo


A festa dos sambas

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 10/08/2008 19:39:29

Começa um dos períodos mais polêmicos do ano para nós que fazemos a cobertura carnavalesca. A fase das eliminatórias de samba-enredo mistura paixão e interesse comercial numa dose que tira muita gente do sério.

O SRZD-Carnavalesco está desenvolvendo um trabalho especial neste período, se esforçando para estar presente nas quadras desde o momento de entrega dos sambas a fim de brindar você com o material mais novo possível. A exposição dos sambas concorrentes é uma demonstração da seriedade e do profissionalismo que este veículo tem demonstrado na cobertura da nossa maior festa.  

É com este propósito que vamos começar a já tradicional análise das "safras". É um segundo passo nesta cobertura que se completará com as reportagens feitas nas quadras das escolas. Nosso enfoque é subjetivo, como prevê uma coluna, e não pretende influenciar esta ou aquela diretoria. Faremos uma leitura crítica das obras em geral e apontaremos as que se destacam, procurando refletir sobre os motivos que levam este ou aquele samba a ganhar o favoritismo.

Sou um compositor licenciado e sei bem o que é participar deste tipo de concurso. Já ganhei três vezes, estive em mais quatro finais e vi também três de meus sambas ficarem pelo meio do caminho. Peço compreensão a meus colegas que sempre procurarei tratar com muito respeito porque sei que fazem seu trabalho com muito amor.

Vou tentar escrever sobre duas escolas por semana, entre Especial e Acesso A. Prometo não deixar nenhuma agremiação de fora, mas peço que entendam se esta ou aquela escola demorar um pouco mais. Não se pode ter uma idéia de um samba ouvindo apenas uma vez. É necessário um tempo de maturação para que a melodia seja perfeitamente "digerida" e compreendida. 

Adianto que tenho algumas convicções antes de entrar nos méritos da safra. Acredito, cada vez mais, que as letras precisam estar mais poéticas e menos detalhistas. Valorizo a transmissão de mensagem de forma sensível e emotiva. Não está escrito em lugar algum que todos os setores, carros e alas precisam estar na letra do samba. Muitas vezes esta busca louca por inserir todo o enredo acaba gerando monstrengos de difícil compreensão. Liberdade poética, pelo amor de Deus!

Quanto à melodia tenho sentido uma grande necessidade de ouvir coisas novas, que fujam dos padrões repetidos nos últimos anos. O samba-enredo precisa se libertar também da estrutura "Refrão - primeira parte - refrão - segunda parte". Porque não ousar, buscar uma formatação diferente? Arte é criar, é buscar o novo.

É importante que tenhamos em mente que o samba-enredo é uma música composta para ser cantada em coral, durante sessenta ou oitenta minutos. Versos mais espaçados, fluentes, sem muitas sílabas, facilitam o canto dos componentes e a propagação do som que emitem, ajudando decisivamente a harmonia. 

Não é um trabalho fácil, muito menos de consenso. Muita gente irá discordar, o que é bom na democracia. O importante é que se abra um debate em alto nível, em prol da qualidade do nosso quesito mais importante, aquele que faz as pessoas se aproximarem ou se afastarem da festa. Que o ano de 2009 nos brinde com sambas antológicos!


| 7 Comentários | Topo


Variedade e qualidade no Acesso A

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 06/08/2008 13:52:40

Só havia escrito até aqui sobre um enredo do Grupo A, o da Estácio. Esperei que todos fossem definidos e, sinopses, em mãos, faço agora um passeio pelo sábado de carnaval (que, aliás, está totalmente indefinido em termos de organização).

Só deixo de lado a Império da Tijuca, que optou pela reedição de um belíssimo samba-enredo e fez um caminho diferente. A escola da Formiga tem tudo para fazer um belo desfile.

Temos uma bela galeria de enredos para 2009. Afora, a coincidência de Renascer e Caprichosos que, embora falem do mesmo assunto, possuem abordagens divergentes, há uma variedade de propostas que causa expectativa. 

Política, ecologia, história, cultura e arte permeiam as criações das escolas que brigam de maneira acirrada para chegar à elite. Que a disputa entre Associação e LESGA não jogue fora um carnaval que promete ser um dos melhores dos últimos anos!

Inocentes - Brizola é carisma e ideal


O texto bem escrito em exaltação a Leonel Brizola realça os pontos mais interessantes do enredo, conta a história de forma linear e correta. É um tema rico em carisma e força política. É preciso, no desenvolvimento estético, tomar cuidado para não fazer mais uma viagem ao redor do mundo. O fundamental, e mais difícil, será retratar o carisma e os ideais de Brizola.

Tuiuti - Glamour e sonho em São Cristóvão

O Tuiuti vai contra história do prédio onde funcionaram o Cassino da Urca e a TV Tupi. Uma história de glamour e alegria que vai ter seqüência com o Instituto Europeu de Design. A Sinopse é recheada de ilusão, fantasia, festa. Um texto inspirador, na medida certa para a composição de bons sambas. Eduardo Gonçalves tem muita coisa bonita para mostrar. É um enredo com proposta visual bem forte e interessante.

Rocinha em desenhos

A Rocinha tem um dos melhores enredos do grupo. Ele não mostra só a bela obra de J. Carlos, mais do que isso: conta um pouco a história da cidade, o que é sempre muito rico. E, espero, vai contar esta história através de traços "caricaturais", o que dá leveza e um tom inovador ao desfile. Fábio Ricardo ganhou o Sambanet de melhor alegoria em 2008 por um carro com tais características, que pode ter sido uma prévia do que veremos em 2009. O texto é bem escrito, com o tom certo de poesia e informação.    

Santa Cruz é verde

A Santa Cruz optou por um tema politicamente correto: a preservação do meio ambiente. É uma escolha, em termos de carnaval, conservadora. O texto é claro, didático e poético, dentro do que a ala de compositores da escola precisa. Pode gerar imagens bonitas e fácil entendimento, mas a verdade é que o assunto já passou pela avenida algumas vezes e não empolgou. A verde e branca da zona oeste terá que tirar um coelho da cartola para reverter este histórico.         

União da Ilha - Viajar é preciso... e muito

O título do enredo da União da Ilha pode, perfeitamente, ter sido uma brincadeira do carnavalesco com a sua própria situação. Hoje em dia, este profissional, cada vez mais, precisa viajar. E foi o que Jack Vasconcelos teve que fazer, provavelmente, para encaixar um dos parceiros da escola no enredo.

A viagem da Ilha tem como ponto de partida a sensacional história de Júlio Verne que, por si só, daria um baita enredo (este pedaço certamente vai gerar belos momentos para o desfile). No meio do caminho surge, bem encaixado, Santos Dumont. A coisa sai dos trilhos quando o inventor do avião serve como ligação para o Rio de Janeiro e o Corcovado. Aí a viagem ganha seu tom mais delirante e pouco conectado com o resto do enredo. A imagem final, do bairro como ponto de partida para viagens, é correta e poderia ter sido mais explorada.

Renascer e Caprichosos - Transportando idéias

Ao ler a sinopse da Renascer pensei que a história dos transportes não é inédita na avenida e também não inspira muitos suspiros. Transporte é fundamental, mas não toca o coração, não mexe com a fantasia. É o tipo do tema, entretanto, que vai dar espaço para a criatividade de Paulo Barros. O texto correto e explicativo vai ajudar o trabalho dos poetas.

Mas depois me deparei com o enredo da Caprichosos e mudei meu pensar. O texto de Marcos Roza para a escola de Pilares tem um "quê" de gente - enfoca mais a relação do ser humano com os transportes. Fruto de pesquisa minuciosa, levanta aspectos interessantes e sai do lugar comum. É mais uma prova de que o mesmo tema pode gerar diversas interpretações e leituras. 

São Clemente - Revelando um personagem

Minha ligação com a escola me torna suspeito para elogiar o enredo "O beijo moleque da São Clemente". O tema é do carnavalesco Mauro Quintaes e a sinopse foi redigida pelo excelente Gustavo Melo, que foi nosso colega de coluna aqui no site. Não participei deste processo de criação. Embora tenha sido chamado pelo presidente Renato para compor uma comissão com este propósito, aquela idéia acabou não indo adiante. Independente disso, algumas considerações podem ser feitas.

Acho que o maior mérito do enredo é revelar um personagem importante, mas pouco conhecido do grande público. Outras escolas já fizeram isso com grande sucesso e eu considero uma colaboração para a cultura popular. A história de Benjamin de Oliveira, além de contar um pouco da história do nosso circo, conta também a do país. Tem muito fundamento e foi bem "linkada" com a realidade da escola. Resta saber como se transformará em fantasias, alegorias e samba. Esta criação precisará de muita sensibilidade e apuro artístico para retratar a bela sinopse. 


| 5 Comentários | Topo


A polêmica ortográfica

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 02/08/2008 09:26:08

O episódio que envolve o enredo da Mocidade gerou polêmica. A escola divulgou um texto e depois voltou atrás. Havia erros de ortografia, que revelavam falta de revisão.

Já se foi o dia em que as escolas se permitiam este tipo de falha. Não é nem o profissionalismo, mas sim a cobrança cada vez maior da opinião pública (devido à abertura que a internet proporcionou ao mundo do samba), que exige qualidade do trabalho das escolas. Ainda por cima numa agremiação com a quantidade de torcedores que a Mocidade tem.

Não é a primeira vez que tais erros aparecem nesta temporada. Talvez sejam frutos do excesso de trabalho de um mesmo profissional. Marcos Roza virou febre entre os dirigentes de escolas de samba. Já escreveu um "sem número de enredos" para 2009. Quando se produz em larga escala um trabalho que não é industrial, que não é padronizado, perde-se qualidade.

Há quem reclame (entre eles o colega Luiz Fernando) que esteja sendo criado um "escritório de enredos", assim como já acontece no mundo dos sambas. Ele próprio pode entrar em detalhes sobre isso.

Eu acho o trabalho do Marcos de muito boa qualidade. Esta qualidade foi que lhe abriu o mercado. Por outro lado, como em qualquer segmento, ele precisa manter um bom nível para manter tal aceitação. Enredo bom não é uma coisa simples de se criar e desenvolver. Há muitas nuances, conjugações e necessidades difíceis de serem encaixadas.

Por isso acho que o mercado começa a exigir outros profissionais para o setor. Não estão mais surgindo talentos "completos", que têm idéias, escrevem, desenham e executam. Há uma divisão muito grande de tarefas e o carnavalesco acaba sendo um grande gerente de criação.

No caso dos erros da Mocidade é importante que a escola procure manter um controle de qualidade interno. Seria interessante fazer como o Salgueiro, que criou uma diretoria cultural de alto nível que ajuda os carnavalescos neste trabalho.


| 13 Comentários | Topo


Do outro lado da ponte

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 30/07/2008 23:26:00

Numa postagem anterior comemorei o surgimento de vários enredos sem patrocínio para o próximo carnaval. Acredito que o fato de um enredo ser "autoral" é um indício. É mais fácil nascer um bom tema da imaginação do que através do interesse financeiro. Isso não significa, entretanto, que todo enredo autoral é bom nem que todo enredo patrocinado é ruim. Esta introdução tem um pouco a ver com os enredos que passo a analisar a partir de agora. Não que eles sejam exemplos do que é bom ou ruim para o carnaval. Mas, no meu modo de ver, são exemplos da importância do desenvolvimento do tema.

Curiosidades sem fôlego

O enredo da Porto da Pedra sobre a curiosidade tem algo cada vez mais difícil de se identificar no carnaval atual: uma mensagem. Ele expõe seu argumento com clareza já no título: "Não me proíbam criar. Pois preciso curiar! Sou o país do futuro e tenho muito a inventar!". O desenvolvimento, porém, tem pontos questionáveis e algumas quebras de narrativa desnecessárias.

O enredo de Max Lopes, com texto assinado por Marcos Roza, defende que a curiosidade humana impulsiona a evolução e também a destruição. Começa nos jardins do Éden, passa pela descoberta do fogo, pela caixa de pandora, pela época medieval e pela renascença. Até aí vai muito bem.

Neste ponto há um desvio de rota, quebrando a cronologia da história que está sendo contada. Há um setor sobre previsão do futuro e outro sobre o apocalipse e, só depois, o texto fala de inventores como Santos Dumont, Thomas Edison e Marcone.

Sobre este ponto é preciso perguntar: será que a magia dos inventores pára no século passado? Cadê as revoluções mais recentes como a cibernética e a genética, por exemplo?

O texto aponta ainda a curiosidade como motivo para conflitos religiosos e bélicos. Lá no fundo pode existir alguma relação entre os fatos, mas as razões que motivaram tais problemas foram na verdade outras, como a luta pelo poder.

O setor final carece de melhor argumentação para concluir a tese do enredo. Falar do Brasil como país do futuro não acrescenta. Parece uma solução padrão para encerrar um desfile. A impressão que dá é que faltou fôlego ao tema para gerar um carnaval de grandes proporções.

Vira-Bahia

Ninguém duvida que Milton Cunha é um dos melhores "enredistas" do carnaval atual. Ele usou de todo seu talento para associar a Bahia tradicional, aquela do Acarajé e da preguiça, à criação de biocombustíveis. Trabalho ingrato, muito ingrato, que ele tirou de letra.

Letra que Milton Cunha domina como poucos. Genial, ele costura seu texto aproximando termos técnicos complicados da linguagem popular, "carnavalizando" a ciência e projetando um desfile que une o gingado baiano à consciência ambiental. A Viradouro vai ter festa, alegria, tradição e também educação, informação.

Talvez este fosse o encerramento perfeito para o enredo do Porto da Pedra, que pretende exaltar o Brasil como país do futuro, mas usou para isso informações e imagens já desgastadas. Axé, Milton! Axé, Viradouro!


| 15 Comentários | Topo


Heróis anônimos do carnaval

Eugênio Leal | Eugênio Leal | 23/07/2008 12:51:41

Foto: Marcelo O´Reilly/DivulgaçãoNo último sábado dei uma passada na festa que comemorava os dezoito anos do projeto "Escola de Mestre-sala, Porta-bandeira e Porta-Estandarte", coordenado pelo Manoel Dionísio. Infelizmente não pude ficar muito tempo, mas nos poucos minutos em que estive presente pude me emocionar com a apresentação dos alunos.
 
Não daqueles mais experientes, quase prontos para assumir um posto numa escola de samba. Quem tocou meu coração foram os que ainda vão demorar ou nunca chegarão lá. Meu sorriso apareceu com as crianças e os que têm alguma dificuldade extra devido a problemas físicos ou mentais. O amor e a alegria demonstrados por eles nos dão uma verdadeira lição de vida.

Fiquei imaginando o tamanho da importância de um projeto como este para a vida destas pessoas, para a sociedade e para o carnaval. E aí é que entra a questão mais importante. Não dá para entender como este projeto, após dezoito anos, ainda não conta com patrocínio, apoio governamental ou das escolas de samba. Além do trabalho social junto às pessoas carentes ele perpetua a cultura do samba criando futuros profissionais. O próprio mundo do samba deveria subsidiar o projeto, pois é lá que muitas agremiações vão buscar seus casais.

Só ali, vendo o sorriso, o bailar e o gingado daqueles crianças, pude entender o que leva uma pessoa a seguir adiante apesar de todas as dificuldades: o amor e a satisfação pessoal por fazer o bem. Como pouca gente faz algo na vida sem visar benefícios financeiros, cheguei à conclusão de que Manoel Dionísio é um herói.

O tão badalado "profissionalismo" do carnaval evidencia sua precariedade ao expor este tipo de ferida. Nossa festa só vai adiante devido ao amor de alguns heróis. Heróis como Mirinha, antigo ritmista da São Clemente, que deixava sua casa toda terça-feira para ensinar, de graça, sua arte aos novatos. Na última semana Mirinha foi atropelado na Presidente Vargas e morreu anônimo.  

Sua memória se eternizará no toque de caixas, repiques e surdos dos novos ritmistas que a escola está criando em seu projeto "Samba Total". Assim como o nome de Manoel Dionísio ficará para sempre na história dos "pares" de Mestre-Sala e Porta-Bandeira. Até que, um dia, as pessoas percebam que eles são fundamentais para o ?espetáculo? que gera milhões para alguns "espertos" que nem sabem que tais heróis existem.


| 12 Comentários | Topo

Patrocínio