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Madrugada é hora de dormir
Lula Branco Martins | Lula | 22/08/2008 08:25:38
Escrevo na madrugada de quinta para sexta. São 15 pras cinco da manhã. Não dormi porque estou vendo olimpíada na televisão. É uma rotina quase desumana trabalhar e ao mesmo tempo acompanhar os jogos. Mas a gente gosta de esporte, gosta de torcer, é isso. E lembro do quê? De carnaval. Porque carnaval, senão veja só, carnaval se dá aqui mesmo, no Brasil, sem fuso nem nada, mas também é uma festa que acontece na madruga.
Será que devia ser desse jeito? Claro, não temos mais desfiles que se encerram ao meio-dia, como andou havendo nos anos 80. Mas mesmo assim, cinco da manhã não deve ser legal pra baiana velhinha, né? Por que tem que começar às nove da noite? Por causa dos direitos da TV? Porque não sete da noite? Sete da noite está escuro já, nenhuma escola sairia prejudicada... Bom, sei lá.
E o que dizer destes cortes de samba? A disputa começa, começa, veja bem, começa!!!, uma e meia da manhã em algumas escolas. O que é isso? Pra que isso? Pro pessoal consumir mais cerveja? É só por isso mesmo? Aí em escolas em que há muitos sambas inscritos a coisa só acaba depois de quatro e meia da matina. Pra que isso, minha gente?
Na madrugada daqui é dia lá em Pequim.
Bom, pelo menos se os chineses assistirem ao nosso desfile na TV um dia, lá estarão eles de olhos bem abertos - até onde conseguirem, claro - pois será bem de tardinha, sol claro no país do bilhão.
Até!
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Palestra cheia de bossa
Lula Branco Martins | Lula | 18/08/2008 12:06:02
Fui a uma palestra sobre bossa nova. Aconteceu quarta passada, na Biblioteca Nacional. À mesa, o historiador Paulo César de Araújo, velho amigo. Ele é autor de "Eu não sou cachorro, não", livro sobre música brega, e também da biografia proibida "Roberto Carlos em detalhes". Ancorando o debate, o professor Vitor Iório, que nos anos 80 me deu as primeiras noções de jornalismo, na PUC.
A palestra corria bem. Paulo César tentava explicar à platéia as três diferentes concepções que a expressão "bossa nova" carrega. Segundo ele, há o movimento bossa nova (um fato datado, vivido na virada dos 50 para os 60 por jovens músicos da Zona Sul carioca); o repertório bossa nova (as canções que, por uma razão ou outra, passaram a compor o roteiro básico daquele período); e a linguagem bossa nova, este sim, o aspecto mais importante segundo Paulo César, que é nada mais nada menos que o estilo musical proposto e definido por João Gilberto, artífice maior da bossa nova, inventor, digamos assim, da moderna música brasileira.
Foi então que, depois de muito falar, Paulo César resolveu provar o que falava. Pôs para rodar CDs. Ia assim> um de bossa velha, em seguida um de bossa nova; um com uma canção à moda antiga, outro com a mesmíssima canção, mas a essa altura já remodelada pelo estilo de João. A platéia, de estudantes na maioria, ficava embasbacada com o que ouvia. As diferenças eram gritantes.
A palestra era de bossa, portanto tinha algo de samba nas suas entranhas, e eu com os meus botões fiquei pensando justamente em carnaval. Mais especificamente, fiquei pensando em samba-enredo. Como seria bom se, em vez de só falarmos, em vez de apenas escrevermos, pudéssemos, como fez o historiador Paulo César de Araújo naquela palestra, provar por a mais bê como os sambas se modificaram. Como as novas gerações entenderiam melhor os nossos apelos... Sonho com o dia em que um palestrante, falando de carnaval, vai mandar soltar um CD com um velho samba, e em seguida um CD com um samba de hoje. E sonho que ele mostre, tim-tim por tim-tim, os detalhes que revelam como duas obras com o mesmo nome, samba-enredo, podem ser tão díspares uma da outra.
E não me venham com essa que é por causa do tempo de desfile que a coisa se descaracterizou. Não é (só) por aí. O buraco é mais embaixo.
Até! Por problemas tecnológicos e internéticos, esta coluna só entrou no ar hoje, segunda, e não na quinta passada. Mas esta semana o "Carnavalesco fresco" volta normalmente, na quinta.
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Puxando pela memória
Lula Branco Martins | Lula | 07/08/2008 16:48:33
Amanhã acabam as minhas férias. Sou professor universitário e sempre inicio cada semestre com a expectativa de ver, à minha frente, dentro das novas turmas, garotos e garotas que gostem de samba e de carnaval. É difícil. Ainda mais porque dou aulas numa faculdade de elite, cara, na Zona Sul. Tenho observado, nos últimos anos, que muitos ali, principalmente as meninas, vêm curtindo mesmo é um funk, bem pancadão, por mais contraditório que isso possa parecer.
Com os que levantam a mão quando pergunto quem gosta de escola de samba, sempre faço um teste nos primeiros dias de aula. Gosto de sacar até onde vai a memória dos aficionados. Vou de ano em ano, em ordem cronológica inversa. Quem ganhou este ano no Grupo Especial? Beija-Flor, respondem. E em 2007? Beija-Flor, respondem. E em 2006? Eles engasgam. A tendência é dizer Beija-Flor, só que não foi. Poucos costumam se lembrar do campeonato latino-americano da Vila. E em 2005? Volta-se à ladainha de Beija-Flor, Beija-Flor, Beija-Flor... até chegar à Mangueira de 2002, do Nordeste e tal. O curioso é que meus alunos até se lembram dos títulos seguidos da Beija, mas só um ou outro consegue acertar o enredo qual foi.
O tri da Imperatriz em 2001, 2000 e 1999 não empolga muito a minha alunada. Eles tinham pouco mais de 10 anos de idade, eram crianças e certamente estavam jogando bola, ouvindo Backstreet Boys ou enjaulados no play de algum condomínio de luxo. Não se ligavam em escola de samba ainda. Do campeonato de 1998 muitos têm ainda alguma imagem na lembrança - por causa da força do símbolo Chico Buarque, homenageado pela Mangueira campeã daquele ano (que dividiu o título com a Beija-Flor). Sempre que tem niteroiense na sala, o auge da Viradouro - 1997 - é citado com orgulho.
Agora, exigir precisão daí para trás é judiar da turma. Mas eu lembro. Já estava envolvido profissionalmente com a festa, como jornalista, e não esqueço da Mocidade de 1996, do bi de Rosa na Imperatriz em 1995/1994, do Ita do Salgueiro em 1993, daí vai. Os anos 80 também tiro de cor, falo rapidinho se me perguntarem. Até os anos 70 eu me garanto. Quer saber 1977? Beija-Flor. E 1972? Império Serrano. Chega a década de 60, quando nasci, e aí a coisa já é meio embolada pra mim. Não consigo responder de primeira todas as campeãs. Tenho que pensar. Claro que existe a lembrança lá no cantinho da memória do Salgueiro de 1969, com a Bahia, e do Monteiro Lobato da Mangueira em 1967. Mas aí vêm os anos anteriores e teve título dividido entre cinco, escola que não existe mais sendo campeã... é... aí começo a depender dos livros, dos jornais, da pesquisa, da memória passada oficialmente.
Faça esse teste você mesmo. É divertido ver até onde nos lembramos. É legal também perceber como nos lembramos, por que nos lembramos, ou seja, o exercício mental que fazemos para que, em algum lugar no cérebro, marquemos um xis em Portela quando nos perguntam sobre 1970 e em Mocidade se o assunto é 1979. É por quê? Por causa dos enredos? São os enredos que vêm à mente primeiro? Ou seria por causa das namoradas que tínhamos em cada ano desses? Tipo: ah, naquele ano eu estava com Fulana e a gente desfilou juntos em 1973 e é por isso que eu lembro que foi a Mangueira que ganhou... Ou é por causa das vezes que vimos os desfiles ao vivo e aí jamais esquecemos? Ou por causa da casa em que morávamos na época?
Lembrar das coisas é uma delícia. Às vezes, chego a crer que a memória é o único bem que, na verdade, temos.
Até!
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O copo, o ovo e a minhoquinha
Lula Branco Martins | Lula | 31/07/2008 21:09:25
A história do copo... Não, esse título é simples demais. Afinal, enredo que é enredo não pode ser assim, tem que ter título grande, muito pomposo e às vezes provocando um certo estranhamento. Vamos tentar este: Copo! Objeto de prazer, sonho de vida, reflexo na luz: a Unidos do Trelelê bebe na borda da alegria. Melhorou um pouco. Agora, os setores. Primeiro setor: o copo indígena; o copo no artesanato marajoara; mitos amazônicos sobre o copo. Segundo setor: os copos trazidos pelo imigrante europeu; a relação do colonizador branco com os copos de luxo; o negro escravo. Terceiro setor: lendas e mistérios sobre o copo; o copo na mesa espírita; o copo da água que é do santo. Quarto setor: o copo cultural; os copos presentes em telas de pintores famosos; músicas com a palavra copo; o copo na tela do cinema. Quinto setor: o copo no dia-a-dia; o que fazer com um copo; cozinha, a moradia do copo. Sexto setor: o copo na indústria; o design avançado dos copos de hoje; a ciência melhorando o copo. Sétimo setor: o copo na ecologia e no espaço sideral; o processo de reciclagem do copo; o copo especial dos astronautas; o copo rumo ao infinito. Pronto. Já é.
A história do ovo... Não, esse título é simples demais. Afinal, enredo que é enredo não pode ser assim, tem que ter título grande, muito pomposo e às vezes provocando um certo estranhamento. Vamos tentar este: A Unidos do Trelelê canta o ovo, mata a cobra e mostra o pau mas... cobra que é cobra come ovo: galinheiro, um apelo à preservação. Melhorou um pouco. Agora, os setores. Primeiro setor: o ovo indígena; o ovo no artesanato marajoara; mitos amazônicos sobre o ovo. Segundo setor: os ovos trazidos pelo imigrante europeu; a relação do colonizador branco com os ovos de galinha caipira; o negro escravo. Terceiro setor: lendas e mistérios sobre o ovo; por que o ovo de boteco é rosa; por que o ovo não fica em pé. Quarto setor: o ovo na cultura; os ovos presentes em telas de pintores famosos; músicas com a palavra ovo; o ovo na tela do cinema; artistas que já levaram ovos na cara. Quinto setor: o ovo no dia-a-dia; o que fazer com um ovo; panela, o destino do ovo. Sexto setor: a indústria do ovo; como são embalados os ovos; a caixinha do ovo de codorna; as promoções nos mercados. Sétimo setor: o ovo ecológico e no espaço sideral; o processo de reciclagem do ovo; o ovo que não agride o meio ambiente; ovo, o melhor alimento para viajantes do espaço; o ovo rumo ao infinito. Pronto. Fechou.
A história da minhoquinha... Não, esse título é simples demais. Afinal, enredo que é enredo não pode ser assim, tem que ter título grande, muito pomposo e às vezes provocando um certo estranhamento. Vamos tentar este: Tem minhoquinha no salão e a Trelelê cai de boca na isca: no mar que é de todos, minhoco eu, minhocamos nós, minhoqueis vós. Melhorou um pouco. Agora, os setores. Primeiro setor: a minhoquinha indígena; o índio pescador e sua minhoca; a minhoquinha no artesanato marajoara; mitos amazônicos sobre a minhoquinha. Segundo setor: as minhoquinhas trazidas pelo imigrante europeu; a relação do colonizador branco com as minhoquinhas especiais para pesca; o negro escravo. Terceiro setor: lendas e mistérios sobre a minhoquinha; a minhoquinha que na lua cheia anda até o mar; a temida minhoquinha de cem patas. Quarto setor: a cultura da minhoquinha; as minhoquinhas presentes em telas de pintores famosos; músicas com a palavra minhoquinha; a minhoquinha na tela do cinema; artistas que já comeram minhoquinha na televisão. Quinto setor: a minhoquinha no dia-a-dia; o que fazer com uma minhoquinha; boca do peixe, a morte da minhoquinha. Sexto setor: a minhoquinha industrializada; a criação de minhoquinhas; a minhoquinha fluorescente. Sétimo setor: a minhoquinha ecológica e no espaço sideral; a minhoquinha ecologicamente correta; as minhoquinhas que foram deixadas no solo lunar; a minhoquinha rumo ao infinito. Pronto. Beleza.
Até!
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Do Leme ao carnaval
Lula Branco Martins | Lula | 24/07/2008 15:30:58
Antes de qualquer coisa, perdão, leitores, pela ausência da coluna na quinta-feira passada. Tive uns probleminhas e não deu para cumprir a agenda. Mas retorno hoje à rotina normal: a cada quinta, uma nova frescura. Essa já é a décima oitava. E a de hoje é a seguinte. Tem a ver com almanaquismos.
Bom, a palavra eu inventei. Mas vocês vão entender já.
Há um mês mais ou menos, quando Jamelão morreu, escrevi sobre velhice aqui na minha coluna. Citei um cara que parece não envelhecer nunca, pois desde quase sempre já carregava uma imagem de senhor: Léo Batista, apresentador da equipe de esportes da Rede Globo. E, agora para falar de uma outra coisa, me valho hoje de outra figura televisiva: Reginaldo Leme.
Reginaldo Leme parece um almanaque ambulante. E isso faz dele um personagem essencial neste que deve ser um árduo trabalho: dar algum sentido àquela coisa chamada transmissão de corrida de Fórmula 1. Não fossem sua memória, seus registros, suas anotações, grande parte daquilo perderia a graça. Vou exagerar a seguir, ok? Mas é pra que me faça entender logo.
Assim: "É a primeira vez que três carros com pneus Michelin fazem o pódio de uma corrida na Ásia". Assim: "Este circuito é o único no mundo que tem mais de 10 curvas em sentido horário." Ou assim: "Nunca um piloto brasileiro, correndo com um carro italiano, fora da Europa, num dia de chuva, havia conseguido, até hoje, chegar na zona de pontuação". Ou mesmo: "Desde 1978, ou seja, há 30 anos, não corriam na mesma prova quatro pilotos franceses em quatro equipes francesas distintas." E, finalmente, e esta agora é real: "Este pódio do GP da Alemanha, com Lewis Hamilton, Piquezinho e Massa, é o de menor média de idade de toda história, com apenas 23 anos e lá vai bolinha e tal, e tal e tal."
Isso consegue, às vezes, dar um certo sabor a algo a princípio modorrento: um esporte que nem parece esporte, um esporte em que nem mesmo conseguimos enxergar o ser humano que está competindo.
Fico pensando como seria um Reginaldo Leme nas transmissões de desfiles das escolas de samba - que, também, cá entre nós, é um evento televisivo complicado de se sustentar, por tantas horas, com o mesmo chamativo para o telespectador médio.
Vamos ver. "Deyse Mocinha é a primeira porta-bandeira canhota, desde Fátima Regina, nos anos 60, que segura o estandarte de forma invertida." Ou então. "Nunca o Império Serrano, desfilando com samba em ré sustenido, conseguiu chegar entre as dez escolas primeiras colocadas." Tem mais essa. "Há 50 anos que uma escola vermelha e branca não apresentava um carro abre-alas verde." E, no limite do almanaquismo, e até misturando os dois "esportes"... "Só nos anos 80 uma escola tinha conseguido chegar ao setor 3 antes da marca de 5 minutos, 0 segundo e 3 milésimos." Ou "cinco duro", como acrescentaria o cara que faria o Galvão.
Gracinhas à parte, exageros obviamente desconsiderados, o clamor é sério: ou essa transmissão melhora, ou nosso amigo carnaval vai ficar cada vez menos comentado.
Conheço gente que não vê mais pela TV desde que reparou que o analista de bateria elogia todas as baterias; que a repórter de celebridades só pergunta "qual é a emoção" para as tais celebridades; que o locutor lê o que vem no livrinho da Liga e nada acrescenta; e que a comentarista de "olha ali naquela ala a Dona Palmira, filha de Nicéia e de Décio das Docas, isso que é tradição" está ali apenas com a incumbência de dizer "olha ali naquela ala a Dona Palmira, filha de Nicéia e de Décio das Docas, isso é que é tradição".
Estou querendo muito?
Até!
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Coluna Carnavalesco Fresco
Lula Branco Martins | Lula | 18/07/2008 20:10:58
Excepcionalmente, a coluna Carnavalesco Fresco não foi renovada na última quinta. Ela estará de volta na quinta que vem, dia 24 de julho.
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Quesitos esquisitos
Lula Branco Martins | Lula | 10/07/2008 18:31:28
Faço listas desde criança, antes mesmo de entrarem na moda. É uma mania. Hoje há inúmeros livros sobre o assunto, reunindo todo tipo de listagem. Entre 2001 e 2006, assinei, com muito orgulho, na revista dominical do Jornal do Brasil, uma coluna chamada "Listas da Domingo". Elas sempre tinham dez itens. Valia tudo, desde "as 10 músicas mais bonitas de Chico Buarque? até ?os 10 jingles políticos mais marcantes da história?, passando por "10 legumes sem a menor personalidade" e "10 artimanhas dos corretores de imóveis sem escrúpulos".
Muitas vezes o tema guardava alguma relação com o carnaval.
Há algumas semanas, reproduzi aqui, atendendo solicitação de amigos e de velhos leitores de papel, um artigo meu que havia saído no JB, intitulado "A Unidos dos Meus Sonhos". Foi escrito em 2004, por ocasião do estouro da Tijuca de Paulo Barros. Desta vez, também a pedidos, republico uma das minhas listas sobre carnaval. Esta, mais especificamente sobre os quesitos do desfile. Ao relê-la, percebi que ainda me divirto com ela. Tomara que vocês também. Foi escrita e publicada na Revista Domingo, do JB, em fevereiro de 2002.
O título era assim: 10 quesitos que deixariam o julgamento das escolas de samba um pouco mais divertido.
O subtítulo era esse: além de harmonia, conjunto e evolução, que tal pedir ao júri para analisar itens mais palpitantes?
E eis, abaixo, a tal lista, devidamente numerada.
1 - Quesito Educação dos Diretores: o quesito premiaria a escola cujos diretores não empurrassem componentes, nem gritassem com baiana velhinha. O estresse na Apoteose quase sempre é desnecessário, mas vai falar isso para diretor bronco? Eles não entendem.
2 - Quesito Lixo: a Comlurb recolheria o lixo depois da passagem de cada escola e botaria tudo em sacos com a cor da agremiação. O mais leve ganharia pontos. Pois fantasia bem feita não despedaça.
3 - Quesito Discurso na Armação: a qualidade do grito de guerra que o puxador faz para animar o Setor 1 deveria contar pontos. Mas chamar o patrono de "meu presidente", por exemplo, mereceria perda de alguns décimos.
4 - Quesito Brindes para a Arquibancada: as boas escolas distribuem bandeirinhas para a galera das arquibancadas. É bonito e respeitoso.
5 - Quesito Fogos de Artifício: hoje é a mesma empresa que faz tudo. Fica pasteurizado. Daria-se bem a escola que preparasse um belo foguetório, mas sem barulho demais, que é para não atrapalhar o samba.
6 - Quesito Alegria de Empurrador: a animação de quem empurra alegorias tinha que valer pontos. Isso sem falar na beleza. Houve um ano em que a Mangueira, por exemplo, só botou beldades na função.
7 - Quesito Excesso de Índio: é vício de carnavalesco e deveria ser punido, tal qual uma obrigatoriedade ao contrário. Mesmo aparentemente fora do enredo, nossos indígenas sempre marcam presença, não se sabe o motivo. O enredo é a história do copo? Ah, então a primeira ala é "o copo na arte indígena". Chega! Menos dois décimos!
8 - Quesito Samba do Esquenta: o quesito avaliaria aquele samba antigo da escola, geralmente usado para aquecer a bateria na armação.
9 - Quesito Frase Inteligente: valorizaria o componente que, logo após o desfile, falasse algo melhor que "foi uma grande emoção". A imprensa faria um levantamento e repassaria aos julgadores. Talvez não desse certo. Jornalista adora inventar uma frase...
10 - Quesito Página na Internet: e, se no fim da apuração ficassem duas escolas iguais em tudo, que tal um desempate para o site mais bem feitinho?
Recordar é viver.
Até!
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Sobre a inveja
Lula Branco Martins | Lula | 03/07/2008 19:53:10
Sou carnavalesco fresco, e até certo ponto invejoso. Sabe aquela inveja que faz a gente querer melhorar, mas sem destruir o objeto da inveja? Pois é, essa aí.
A Band transmitiu Parintins.
Não, eu não queria estar no lugar do Milton Cunha. Não queria ser ele comentando, no ar-condicionado, ao lado do enjoadamente ufanista José Luiz Datena, comendo de graça e assistindo ao espetáculo bem de frente, recebendo imagens de dez câmeras diferentes, dez ângulos distintos, e com toda aquela mordomia. A inveja não é essa.
A inveja também não é das alegorias da festa de lá. Aqueles bichos mexem, sim, mas não vejo tanta graça nisso. Maior esforço do mundo, um monte de operário lá dentro da coisa, e o resultado? Um boneco de onça que fica se parecendo não com uma onça, mas com um boneco de onça. Prefiro as nossas alegorias. Claro, quando as nossas alegorias são criativas.
A inveja tampouco é da música. As toadas são muito bonitas e, para um sujeito do Sudeste, como eu, soam diferentes. É uma batida que não existe por aqui. As melodias, contudo, se tornam, com o passar da noite, repetecos sonoros. E as letras se esforçam para roçar na poesia, mas por vezes escorregam no piegas. O nosso combalido samba-enredo tem mais vibração. Óbvio que tudo isso é relativo, e tem a ver com o ouvido de quem está analisando o tema. Alguém amazônico certamente não veria diferenças relevantes de estilo de samba de uma Imperatriz para o de uma Beija-Flor, de uma Tijuca para uma Mangueira. Mas tem, né... Ainda tem.
Se eu invejo as mulheres de lá? Olha, aqui tem mais mulher. A abundância é maior, e no Rio todo mundo fica mais pelado, né? Mas as de lá me parecem, olhando cá de longe, pela tela, tão mais verdadeiras... Índias de cabelão, aquele sorriso onde cabem 32 dentes, e todas elas cantando! Cantando! Que diferença de umas rainhas daqui que nem sabem o refrão dos nossos sambas... Taí, fico mesmo um pouco chateado de não ver por aqui as mulheres lindas do carnaval de Parintins.
Mas a inveja mesmo, a grande inveja, é o povo.
O povo. O povo. Aquelas arquibancadas parecem estar vivas. E na verdade as milhares de pessoas, que ali estão, estão. A participação do público em Parintins é algo que não se vê por aqui. Aqui é o contrário. Nossas arquibancadas no Sambódromo só ficam vendo, como diria o outro, a banda passar. Isso sem falar naquele setor de turistas, gringos que pedem autos uma da manhã e vão embora. Fica aquela arquibancada vazia, e um monte de desvalidos lá fora, se babando para entrar.
O carnaval de Parintins, do boi azul contra o outro, vermelho, para muitos é sempre igual e um tanto repetitivo, pois conta as mesmas histórias toda vez. É. Pode até ser. Fica meio dejá-vu. Mas alguma magia existe por lá, magia essa que está faltando por aqui.
Sabe o que acontece? Sabe por que lá tem magia?
É que lá o povo está junto. E por isso é uma festa. Festas são assim.
Aqui, com o povo quieto e sem cantar, e isso talvez aconteça pela decadência dos sambas, a coisa parece ser apenas um desfile, e não uma festa.
Quer desfile mesmo? Gosta de desfile? Acorde cedo no 7 de Setembro. É quando se tem um desfile ao pé da letra. Mas a Sapucaí não deveria ser a avenida de um desfile, e sim o palco de uma festa.
Inveja de Parintins.
Até!
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Uma dúvida atroz
Lula Branco Martins | Lula | 26/06/2008 19:06:52
Fui a uma reunião outro dia. De um grupo de profissionais. Juntos, eles tocam um projeto. Não sou o líder. Longe disso. Sou apenas um dos participantes. Bem. O projeto está crescendo. Existem muitos envolvidos. Há um tempo, fez-se uma festa de comemoração pelos resultados. Foi boa. Já se pensa em outra festa, na próxima. Mas agora ela seria num lugar maior, para mais pessoas. Talvez mil. Aí alguém falou: "O risco é a coisa crescer demais; será um problema se for muita gente. Vai descaracterizar, vamos perder o controle."
Há duas semanas, fiz um texto, aqui, quase tão misterioso quanto este. Falava, nas entrelinhas, mas revelo agora, de uma escola pequena, chamada Delírio da Zona Oeste. Dizia, naquela coluna, que dias atrás havia batido um papo com integrantes da diretoria, e que elas (eram mulheres) insistiam em me provar que "o verdadeiro carnaval está lá no Grupo D, na Intendente".
Escrevi sobre isso, levantei opiniões, questionei a informação e fiz, enfim, digressões. Faltou dizer, naquela coluna, que elas querem mais é subir. Fazem força para serem campeãs. Não vêem a hora de chegar ao C e depois ao B (e, conseqüentemente, à Sapucaí) e já falam até em, quem sabe um dia, pegar um Acesso A, projeto maior para os primeiros anos da década de 10.
Ué? Então o que isso quer dizer? Que querem mais é deixar para trás o "verdadeiro carnaval"? Que se renderam? Não. Quer dizer que querem crescer e, uma vez a escola crescida, quem sabe levar consigo, dentro do espírito de cada componente, o "verdadeiro carnaval", para onde quer que se vá.
Pensei nisso naquela reunião da semana passada. Uma empresa, ou um grupo, ou um órgão, ou um clube, ou uma associação, mesmo uma família, o que seja, mal ou bem acaba passando sempre pela fase da dúvida atroz: crescer demais e acabar se descaracterizando; ou manter raízes e uma certa humildade em detrimento da notoriedade, da fama, da expansão?
Não sei. Não tem certo e errado nessa. Mas reflito muito sobre a questão.
Será que um dia alguém do Salgueiro pensou: "Estamos explodindo, é melhor segurar a onda". Será que alguém em Nilópolis anda questionando: "Quase 50 alas não é demais, não?" Sei lá.
Como diria um amigo: é uma dúvida atroz, que não sai de nós.
Até
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Velhos
Lula Branco Martins | Lula | 19/06/2008 15:39:53
Léo Batista, locutor do esporte global, aquele da "voz marcante", sempre me pareceu velho. Ele já era velho no meu tempo de garoto. Quando a gente é menino, todos com mais de 40 anos parecem velhos. Hoje eu mesmo tenho mais de 40, e permanece lá o Léo Batista, firme e forte, na tela da TV, lúcido, profissional, bom no que faz. E velho.
Nem parece ter envelhecido, continua com a mesma cara, pois - que estranho - já era velho mesmo quando era novo.
Esta é a impressão. Não a verdade, claro.
Igual a ele, e apenas para ficar no mesmo metiê, o esporte, também Ademir da Guia, o jogador, é outro que sempre me soou velho. Existem muitos mais assim. Lembrei dos dois por causa da morte, no sábado, de uma das figuras mais velhas do carnaval: Jamelão.
Questiono. Jamelão foi adolescente ou fez alguma mágica e conseguiu pular esta fase chata da vida? Será que era bonito aos 25? Tinha mais cabelo quando jovem? Talvez eu nunca saiba disso direito.
Desde os anos 80 acompanho, em reportagens especiais, programas na TV e mesmo na mídia impressa, tributos a Jamelão. E as imagens dele, com exceção daquele típico registro colegial de infância (a foto com a turminha da escola), são sempre as de um Jamelão mais para velho, cantando samba-canção com a voz triste de quem muito já sofreu na vida.
Não, os arquivos não se queimaram. Não, as fotos não estão bloqueadas pela Justiça. Apenas se revela aí um fato: o respeito do mundo artístico não veio de forma rápida para Jamelão. Sua participação em shows de calouros, no rádio ou na TV, não bate com a época de sua tenra juventude. Foi depois. Por isso quase não há imagens desta fase: ele batalhou muito até poder olhar para uma câmera; melhor, batalhou muito até que uma câmera se prestasse a olhar para ele.
Agora vou divagar. Com i mesmo.
O envelhecimento precoce da imagem de Jamelão me parece ter seguido, de certo modo, movimento oposto à construção da imagem que se tem de um outro ídolo da cultura nacional (e, tal e qual o intérprete da Mangueira, de forte presença em nossas camadas mais populares): Roberto Carlos. Este, forçando a barra, parece não querer envelhecer. Parece que desde sempre foi e é jovem, garotão. Aqueles carrões (outro dia mesmo, um deles foi tema de matéria no "Fantástico"), aquela dúvida permanente se é implante, se é cabelo, se é peruca... De uns anos para cá, aquela camisa mamãe-sou-forte, a malhação, as plásticas...
O mais curioso nessa comparação: também de Roberto não se tem imagem da adolescência. Ninguém foi buscar, ou ninguém pôde buscar, fotos que mostrassem o artista antes da fama, que mostrassem a luta de um menino cantor, também, como Jamelão, de origem humilde, apoiado em muletas, tentando ganhar a vida no mundo artístico.
As histórias destes dois grandes ídolos, Jamelão e Roberto, em certos pontos se confundem e mostram que se pode envelhecer de várias maneiras. Não que um seja mais digno que o outro. Não é isso. Os dois, talentosíssimos, não conseguiram o sucesso de forma fácil e rápida, ambos sofreram preconceitos, se agigantaram, viraram ícones, foram importantes para milhões de pessoas. Prefiro, contudo, os velhos velhos; e os moços moços. Tudo é tão mais bonito assim.
E Jamelão era uma beleza.
Até!
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Delírio esquizofrênico
Lula Branco Martins | Lula | 12/06/2008 17:50:05
Delírio existe de verdade e é um cão. Mas é mentira que ele seja esquizofrênico. Não. Ele é apenas manco.
Esquizofrênico, por sua vez, se trata de um adjetivo. E, aqui neste texto, quem será taxado de esquizofrênico é o carnaval, não o cachorro. A união das duas palavras, porém, me soou legal, ficou bacana, e só por isso elas foram juntas para o título.
Daqui a pouco falo mais do Delírio.
E também sobre esquizofrenia.
Tenho 17 anos de jornalismo, 15 deles no JB, um jornal da Zona Sul, como diriam os reducionistas, e até com certa razão. Sendo assim, no tempo em que estive por lá cobrindo os desfiles das escolas de samba, o foco das reportagens se concentrava tão-somente no Grupo Especial. Leia-se elite. Entenda-se glamour. Uma vez ou outra, negociando-se muito com a chefia, nós repórteres conseguíamos emplacar uma pauta sobre o Grupo A, espécie de segunda divisão do carnaval. Acabei um dia sendo promovido a editor, e aí eu negociava comigo mesmo, ficou tudo mais fácil. Mesmo assim, bem sabia que não teria o mínimo sentido encher as páginas do Jornal do Brasil com matérias sobre os grupos B, C, D ou E. Se assim o fizesse, o diretor da Redação, que lá na hierarquia estava acima de mim, certamente iria me cobrar explicações imediatas. Havia de se ter bom senso.
Anos se passaram. Saí oficialmente do dia-a-dia da mídia impressa. Professor universitário, eu estou, portanto, fora do circo. E, de longe, olho o estado das coisas. Constato que apenas os tablóides de 50 centavos às vezes, às vezes, às vezes, abrem suas páginas para o quarteto B-C-D-E. Já os jornalões importantões vão mesmo de Especial. E de A, aqui e ali.
Alguém me disse uma vez, aliás, vários me disseram várias vezes: esqueça o domingo, esqueça a segunda, pois o verdadeiro carnaval desfila é no sábado, nas escolas do A, com mais garra, com menos compromisso, com mais raiz, mais autenticidade, aquela ladainha toda. Acreditei nisso até anteontem.
Pois, por causa do trabalho de anos a fio na Sapucaí, de colete de imprensa no peito e caneta na mão, nunca tive como ir aos desfiles da Intendente Magalhães. Estive lá apenas duas vezes, mas de passagem, rapidamente, sem um olhar profissional mais atento. E eis que nesta semana dividi uma mesa de bar, por horas, com pessoas da diretoria de uma escola pequenininha, dessas que às vezes estão no C, ou no D, até no E, e que chegam, durante meses, a deixar de existir. Sim, fecham as portas. Depois voltam à vida, sabe-se lá como.
Puxa, elas me contaram muitas histórias. Histórias bonitas, de garra, de luta, de entrega total a uma causa. O que no fundo pareciam querer me mostrar? Que o verdadeiro carnaval não está no Grupo Especial. E nem no Grupo A, como eu acreditava até então. O verdadeiro carnaval estaria nos grupos C e D. Pois lá na Intendente se alguém desfila é porque gosta realmente da coisa, e não porque quer aparecer ou porque tem outros objetivos escusos. Pode ser. Mas fico pensando que, se no boteco houvesse alguém de alguma escola do E, ah, logo falaria que estão todos errados, e que o verdadeiríssimo carnaval só se vislumbra no E.
As letrinhas da Aescrj acabam aí, mas a imaginação é algo livre e pode ir além. E, assim, se pensarmos numa situação limite, o privilégio do verdadeiro carnaval seria certamente reivindicado pelo Grupo H, depois pelo Grupo P, até chegarmos ao Grupo Z. Grupo Z, bem entendido, eu, ou você aí, vestido de pirata tocando tamborim sozinho na varanda, desfilando para lá e para cá, sem holofote, sem mídia e sem jurado, mas ainda assim querendo ganhar seja lá o que for, sonhando subir ao Grupo Y.
A honra do monopólio daquilo que seria o verdadeiro carnaval não tem vencedores. Esta luta é vã e esbarra na profissionalização do evento. Profissionalização que parece ser o cerne, e enfim eu chego à palavra, de uma esquizofrenia, de um disparate, de uma falta de nexo. Senão vejamos: qual é o verbo mais atrelado ao conceito de carnaval? É o verbo brincar. Carnaval se brinca. E quem brinca faz farra, algazarra, e cai, e grita, e erra, e zoa, todo esse tipo de atitude que em nada mais é parecido com o que se vê nos desfiles de agora, especialmente na Sapucaí. O carnaval virou uma festa esquizofrênica: é uma brincadeira, mas vale décimos; é alegre, mas tem que ser sério senão a escola cai e o patrocínio acaba; é todo mundo bêbado, mas o diretor de harmonia vai brigar se a as fileiras da ala se desalinharem; é dispersão e contrição ao mesmo tempo; é bem-humorado na ala das bonecas, mas mal-humorado na comissão de frente de movimentos ultramarcados. Para usar o termo da moda na medicina, o carnaval é bipolar.
À mesa, me emocionei ouvindo relatos sobre o esforço do pessoal que dirige a pequena escola. Fantasias feitas de TNT; via-crúcis pelos mercadinhos do bairro para pedir cola, grampo, pano, tudo e qualquer coisa; roupas de segunda mão emprestadas por agremiações vizinhas; dinheiro do próprio bolso para fazer uma alegoria de dez tostões; quadra simples; samba-enredo sem CD; e, compondo perfeitamente a imagem deste quadro de pobreza e dificuldades, um cachorro mascote que manca de uma perna e que se esconde no banheiro quando a bateria começa a tocar, pois fica com medo. Um vira-lata chamado Delírio.
Parabéns a todos os vira-latas do carnaval. A festa até pode estar um tanto esquizofrênica, mas se é carnaval dentro da gente, creio que ainda há solução.
Até!
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Do futebol, do carnaval
Lula Branco Martins | Lula | 05/06/2008 19:19:11
"Brasil está vazio nas tardes de domingo/ olha o sambão, aqui é o país do futebol". Na voz de Simonal, este refrão antigo, que até outro dia fugia da minha memória, mas que voltou, faz também retornar à minha cabeça uma velha dúvida: seríamos o país do futebol (como diz explicitamente a letra) ou o país do carnaval (como diz implicitamente a letra, ao raspar no conceito de carnaval quando fala em "o sambão")?
Não tive como não pensar nisso ontem, dia de glória tricolor, dentro do Maracanã, contra argentinos. Moro perto do estádio e testemunhei, como a canção, um certo esvaziamento das ruas (no caso, não numa tarde de domingo, mas numa noite de quarta) na hora do jogo. Percebi centenas de televisões ligadas. E, depois, após a meia-noite, fatura já liquidada, vi o burburinho dos torcedores felizes.
Somos o país do futebol.
Não somos o país do carnaval.
O futebol nos integra muito mais que o samba. Para, por exemplo, um gaúcho, para a média dos sulistas (não estou aqui falando de exceções, como Uruguaiana), um desfile de escolas de samba não diz muito. Não toca o coração. Do mesmo modo, não deve ser a coisa mais natural, em Curitiba, um churrasco com pagode na tal tarde de domingo cantada em verso.
Quando, em meados do século passado, o país crescia, deixando de lado características rurais e precisando de novos símbolos, o Rio era a capital da República. O samba ? e o carnaval, a reboque ? virou o traço mais forte de nossa cultura muito pela circunstância de o Rio ser a cidade mais poderosa do Brasil nas décadas de 30, 40 e 50. Era politicamente importante, para a Ditadura Vargas principalmente, elevar um som do Rio à categoria de música nacional. Quero dizer que teve, sim, um dedo político nisso tudo. Por que não é a música caipira o símbolo do Brasil? Porque o interior de São Paulo não mandava tanto assim na época. Agora manda, mas na época, não (Chitões e Zezés são coisa de agora, de 20 anos para cá). O samba, o nosso samba, erguido em cantinhos cariocas lá no início do século 20, despontava assim como a marca principal do país, inclusive para reconhecimento no exterior.
Mas aí vieram as copas: 1958, 1962, 1970, 1982 (sim, ela), 1994 e 2002.
E não houve jeito: o Brasil aos poucos foi se tornando o país do futebol.
Vivo numa cidade. Ela tem barulhos e cores. Minha audição e minha visão, só para ficar nestes dois sentidos principais, elas são estimuladas pela urbe.
Sentidos...
Quando a vizinhança grita o "gol" e todos os palavrões a ele atrelados, este é o som mais bonito que já ouvi. É um barulho de uma cidade. Parece que vem do chão, do concreto. Mas é de gente. É uma boca. É um barulho que, em copas, um país inteiro - e gigantesco - está fazendo, ao mesmo tempo. Isso me emociona.
O desfile das escolas de samba também me emociona. E, a uma certa distância, aquele azul mais claro que a madrugada próxima ao Sambódromo apresenta, por causa dos refletores da Sapucaí, esta é, para mim, a cor mais bonita do nosso céu.
Ouço de longe o "som do futebol". Vejo ao longe "a luz do carnaval".
No meu coração, isso faz sentido.
Até!
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Ele, o samba-enredo
Lula Branco Martins | Lula | 30/05/2008 09:57:00
Esta é minha 11ª coluna aqui. E até agora não havia tocado num assunto que para mim é fundamental nessa história toda: o samba-enredo.
Gosto de carnaval desde menino. Mas o que primeiro me conquistou não foram as alegorias; não foi o fato de ser uma festa popular; não foi o rodopio das baianas; nem as mulheres quase nuas; nem mesmo a bateria tocando do meu lado; nem nada disso. O que me conquistou, inercialmente, principalmente, foi o samba-enredo.
Ainda garoto, já fazia plantão nas lojas para comprar o vinil assim que ele saía. Tenho alguns do tempo do onça. Coleciono os CDs também, claro. E aqui já entrego o que me fez finalmente, após 10 colunas, escrever sobre o assunto: foi a coluna da semana passada do colega Eugênio Leal. Ele listou alguns dos melhores sambas do século - século 21, bem entendido. Deu suas opiniões, recebeu dezenas de comentários, alguns elogiando a lista, a maioria dizendo que ele esqueceu este ou aquele, e tinha gente até que andou atirando pedras virtuais no companheiro Eugênio pois ele não tinha posto este ou aquele... dos anos 80! Mas a lista era só do século 21, minha gente!
Bom, voltando. Concordo aqui e ali com o colega, discordo aqui e ali também, mas o que considerei o mais importante no texto foi a reflexão dele sobre saudosismo e saudosistas. Assino embaixo, Eugênio: o samba se modificou, ficou mais acelerado, tem escola que adora uma marcha (pensando que assim desfilará mais alegrinha), mas mesmo assim - e é neste ponto que estamos juntos - ainda são compostas grandes obras.
Em janeiro agora, a revista Seleções me encomendou uma lista daqueles que seriam, na minha opinião, os 10 melhores sambas-enredo de todos os tempos. E eu publiquei lá. Fiz questão de variar as décadas, justamente por causa disso: para que eu não ficasse parecendo - até porque não sou mesmo - um saudosista que só tem olhos e ouvidos para "Os sertões", "Tiradentes", "Aquarela" e afins.
Claro, são lindos - "Aquarela", inclusive, por sua força popular, sabido de cor por várias classes sociais, até entrou na minha lista. Mas creio que estamos numa batalha. E nossa tática de guerrilha deve valorizar o carnaval como ele é, como ele vem sendo, e não só como ele foi.
E é evidente que não estou dizendo que hoje estamos melhores do que ontem. Não. Estamos piores, bem piores. Hoje vão para a avenida alguns sambas sofríveis, que jamais ganhariam concurso algum no passado. O que estou dizendo é que há, sim, coisa muito boa sendo cantada por aí. Decreto: samba-enredo com qualidade não morreu ali por 1975 ou 1977, como costuma dizer quem tem 30 anos a mais que eu (ou 40 a mais que você, Eugênio).
Na minha lista, que saiu na Seleções, havia espaço para "Heróis da liberdade", do Império, em 1969; mas também para "O dono da terra", da Tijuca, de 1999, de exatos 30 anos depois. Tinha o Círio de São Carlos de 1975; mas tinha também um da Imperatriz - Imperatriz! -, de 1996.
E ainda Salgueiro 1974, Vila 1988, Mocidade 1971, Ilha 1982 e tantos outros.
Mas não quero me alongar mais - até porque sobre este tema, samba-enredo, ainda vou falar muito aqui. Esta coluna foi quase tão-somente para dizer -"Eugênio, nesta questão aí estamos juntos e misturados".
Aliás, de sua seleção do século 21, também gosto muito de Mangueira 2002 ("Cabra da peste"), Tijuca 2003 ("Agudás") e Arranco 2006 ("Gueledés").
Até!
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Mudar
Lula Branco Martins | Lula | 24/05/2008 02:35:00
Mudar é difícil. Talvez seja o verbo mais difícil da língua portuguesa. Não na conjugação (pois nisso é mole, basta reproduzir o "falar" ou o "cantar"), mas na ação real em si. Mudar é complicado. Há quem diga que, por exemplo, os velhos, nem adianta tentar, esses aí não mudam mais, não aprendem mais nada, não repensam coisa alguma. Céticos vão além: asseguram que pessoas com mais de 18 anos também não mudam mais são aquilo e acabou. No máximo, no máximo, podem dar uma melhorada aqui, outra ali, mas na essência não se alteram em necas de pitibiribas.
No nosso habitat, o carnaval, mudar parece ser uma coisa ainda mais difícil. Pois aqui se vive de vangloriar tradições, enaltecer baluartes e solidificar raízes. Tradição, para uma festa como a nossa, é algo que beira o fundamental. Por tudo isso, criamos monstros, vimos nascer xiitas.
Imagino que a Portela resolva trocar de cor. Sai o azul, sai o branco, entram, digamos, o rosa e o preto. Os radicais chiariam um rio inteiro de lágrimas. E que tal se uma bateria inteira resolvesse mudar? Sim, depois de décadas de resistência, a Mangueira desfilaria toda orgulhosa pela qualidade dos seus... surdos de resposta! Reagiriam com contrariedade todos os ouvidos acostumados à tradição da batida do surdo um.
E os delírios da mudança poderiam até ir além: Vila sem samba bom, Grande Rio sem artistas, Beija sem comunidade. Vamos mudar mais ainda, que tal agora uma mudança de conceitos? Mestre-sala rodando com a bandeira e porta-bandeira fazendo-lhe sala; a preferida da bateria se divertindo no meio de uma ala qualquer; um samba sem toque de marcha e sem refrão, puxado por voz de mulher; uma alegoria anã; e uma comissão fechando o desfile. Sei lá.
Mudar, até aonde sinto, devia ser o motivo de tudo. Mudar para depois mudar de novo. E mudar outra vez. E errar! Sim, errar! Pois tem coisa mais humana que isso? Arriscar. Além: arriscar-se.
Hoje o site está mudando de cara. O que ele no fundo faz, que é informar, mantém-se intacto. Mas... e aquela cor ali? Mudou. E essa diagramação, ela está diferente, não está? Está, pois é, mudou. Mas... e a antiga foto dos colunistas? Eles se transformaram em caricaturas, mudaram.
Força pra gente, pois mudar provoca reações, e vamos tê-las.
Sonho com o dia em que o verbo mudar, ele próprio, mude: saindo da primeira conjugação, indo para a segunda ? para ser conjugado rotineiramente, assim como o verbo viver.
Até.
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