Fotos, capas e questionamentos
| Soares Júnior | 07/10/2008 20:00:00
Vi as fotos de Fernando Gabeira, do PV, e de Eduardo Paes, do PMDB, na primeira página do Globo, na terça-feira 7 de outubro. Paes abraçando uma eleitora e Fernando Gabeira de sunga saindo da piscina. Lembrei da primeira página de um jornal do Rio, em 1986. Havia uma notícia sobre Fernando Gabeira e do lado, numa notícia que não tinha nada a ver com a de Gabeira, o desenho de uma folha de maconha.
O que mudou nas primeiras páginas dos jornais nos últimos 22 anos? Elas fotografaram o nosso aprendizado na construção de uma democracia, a eleição de 3 presidentes em 5 pleitos diretos e várias vitórias e mazelas do país. Os adeptos da teoria da conspiração dirão que Gabeira ficou em situação desfavorável nas duas vezes. Há 22 anos era um militante e cravei no coração a certeza que aquela era a reação da DIREITA contra a candidatura PROGRESSISTA.
Na de hoje, tenho dúvidas. O Gabeira de sunga pode representar um político com idéias pouco convencionais, como disse em entrevista ao SRZD, o cientista político Cesar Romero Jacob, da PUC. A foto convencional de Eduardo Paes pode ser um reflexo de suas propostas para a cidade. Pragmaticamente, líderes de vários partidos se encaminham para o lado do peemedebista.
A primeira página de 1986 atrapalhou Gabeira naquela eleição em que ele ficou atrás de Darcy Ribeiro e de vencedor da disputa, Moreira Franco? Não sei, mas sinceramente espero que essas fotos não decidam esta eleição, o que aliás duvido ter sido essa a intenção dos editores do Globo ao colocar as fotos lado a lado.O que interessa são propostas e vamos avaliar quem tem as melhores, independentemente de crenças religiosas ou gosto por time de futebol.
Se alguém tem a resposta, deixe seu comentário por aqui.
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Vamos lá, o perfil da Câmara de Vereadores mostrou algumas coisas. O DEM, de Cesar Maia, não teve os 13 eleitos que o GPP esperava. Foram apenas 8. Os pequenos partidos cresceram e deixaram a casa legislativa pulverizada. Mas algumas expectativas se confirmaram. Nomes suspeitos de ligações com milícias como Cristiano Girão e Jorginho da SOS se elegeram. Promovemos também a incrível eleição de uma pessoa que está presa. Onde será a diplomação de Carminha Jerominho, do PT do B?
Perdão pela coluna cheia de questionamentos. Espero que vocês, que me dão o privilégio da leitura, se lembrem em quem votaram para vereador no dia 5 de outubro. Por força do ofício, conheço meu candidato. E vou cobrar dele posições em favor da ética e da resolução dos problemas da cidade. Espero que vocês façam o mesmo com os de vocês.
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Uma para encerrar. Minha cantora preferida me encontrou alguns anos depois. O encontro foi uma festa, ela riu e disparou mortalmente: - Trocamos de corpo, emagreci e você, hein?
Ri amarelo e levei-a ao estúdio da CBN. No fim da entrevista ao ser indagada sobre o que gostava de fazer, ela disparou: - Adoro ouvir MPB FM.
Como diria um outro cronista, pano rápido.
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Câmara do Rio pode ter uma das piores composições da História
| Soares Júnior | 30/09/2008 23:09:43
Uma pesquisa que circula tanto na Assembléia Legislativa quanto na Câmara de Vereadores do Rio tem norteado nos últimos dias a atuação dos candidatos a vereador. Foram 7 levantamentos feitos pelo GPP, nos quais foram ouvidas 10 mil pessoas. Não há registro dela no Tribunal Regional Eleitoral, mas os deputados e vereadores têm conhecimento dela e fazem seus cálculos. A metade das pessoas ouvidas não escolheu o vereador. Um dado ruim, tendo em vista que falta menos de uma semana para as eleições.
A candidata pelo DEM Rosa Fernandes foi a mais citada e surge como uma possível campeã de votos. Aliás, pelo levantamento, o partido de Cesar Maia faria 13, das 51 cadeiras disponíveis. Candidatos ouvidos pelo SRZD acreditam que este número do partido do prefeito pode estar inchado.
De acordo com o levantamento, a Câmara do Rio teria a seguinte composição: O PMDB faria 4 vereadores, o PDT elegeria 2. Dois também seriam os eleitos da coligação PC do B/PSB. PMN/PTC fariam 2, PP/PSL também 2. O PPS elegeria 2, o PR teria dois representantes, a chapa PRB-PRTB faria dois. PRP/PSC elegeriam juntos 3. O PSDB faria 5, O PSDC teria um representante; a coligação PSOL, PSTU teria um representante. O PT elegeria 3 vereadores, o PT do B, 4, o PTB teria 2 e o PV conseguiria uma vaga.
Há um dado que preocupa no levantamento. Mesmo presa, suspeita de envolvimento com as milícias, Carminha Jerominho deve ser uma das 20 vereadores mais bem votadas do município do Rio. Há também outros nomes envolvidos em investigações que podem conseguir uma vaga na Câmara. Jorginho da SOS, do DEM é investigado por suspeitas de ligação com o tràfico. Já Cristiano Girão, do PMN aparece entre os 40 mais bem votados. Ele é investigado por suspeita de chefiar a milícia que controla o bairro da Gardênia Azul. Luiz André Deco, do PR é o quadragésimo segundo nome mais votado. Deco é suspeito de comandar as milícias na Chacrinha e no Mato Alto.
Políticos ouvidos pelo SRZD dizem que esta é a campanha mais difícil dos últimos anos. Há zonas de exclusão na cidade. Não se pode colocar cartazes, faixas ou panfletar para candidatos que não sejam os "recomendados".
Há lugares na Zona Oeste em que as pessoas são coagidas a colocar cartazes em suas casas. Há ameaças explícitas para que as propagandas não sejam retiradas.
Um candidato a vereador conta que em algumas das suas placas de campanha os olhos dele foram furados, numa retaliação por estarem em território hostil.
Pessimistas ou realistas, estes políticos estão constatando, nas ruas, a morte do voto de opinião. A história contada por um deles retrata bem como anda a campanha em São Sebastião:
- Sempre tomo café numa padaria depois de buscar minha mulher no Trabalho. O dono sempre votou em mim. Expansivo ele disse para a mocinha que estava servindo que ela tinha que votar em mim. A resposta da atendente foi desconcertante - não voto não. Vou votar no candidato da minha área. Eu tenho uma kombi que me pega na porta de casa e me leva até o ponto de ônibus. Tenho TV a Cabo por R$13 e o local está seguro. O senhor vai me dar isso tudo? Honestamente disse que não faria nada disso e dei o assunto por encerrado - contou o político.
O problema parece ser a despolitização da política. Este desinteresse pode levar a uma câmara capaz de proporcionar espetáculos muito piores do que a atual, que, num acordo informal, resolveu só fazer sessões uma vez por semana, recebendo pelos outros dias sem trabalhar.
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"Causos" da minha cantora preferida
| Soares Júnior | 24/09/2008 16:29:00
Promessa é para ser cumprida. Disse que contaria mais histórias sobre a cantora com que trabalhei, então vamos. O país estava disputando a Copa do Mundo de 94, em busca do tetracampeonato. Três lugares disputavam a primazia de ser o melhor do Rio para um tipo de público. Jazzmania, Mistura Fina e People. As três tinham uma platéia de 200 a 300 lugares e atendiam a um público de classe média alta na pré-histórica época antes do Real.
Minha cantora estava fazendo a temporada no Jazzmania de duas semanas. Uma querida amiga, que também era cantora, estava em crise no relacionamento e decidiu ir aos shows. Levei-a na primeira semana. Como a minha cantora conhecia minha amiga há algum tempo, convidou-a para subir ao palco, o que no jargão musical chama-se "canja".
No meio da semana toca meu telefone. Minha cantora liga e pergunta: "A fulana é gay?"
Eu expliquei que não, no que minha cantora rebateu: "que pena, estava pensando em pagar um jantarzinho e um vinho francês para ela".
Semana seguinte estamos lá para a segunda semana da temporada. No último dia, chamo minha amiga para o espetáculo. Ela faz a ressalva de que minha cantora poderia achar a presença estranha e algum sinal de interesse. Eu disse que não tinha esse perigo, que minha cantora já tinha entendido o recado.
O show vai evoluindo e minha cantora começa a exagerar no álcool. Perigo à vista. Acaba o espetáculo e minha cantora traça uma reta até a mesa em que eu estava. Olhos vidrados, andar trôpego a chegada foi apoteótica. Ela olha para minha amiga e dispara: "fulana, eu quero te comer". O tempo parou. Minha amiga do alto de mais de 10 anos de análise emendou: " você tem todo direito de expressar seus desejos". Minha cantora atalhou: "chega de conversa fiada, eu quero é te comer, venha aqui no cafofo, me fazer um carinho". Tentando afrouxar a saia justa, chamei a atenção para Regininha Poltergeist, que acabava de entrar no recinto. Nada adiantou e minha cantora começava o assédio e deu a cartada definitiva: "te botei no palco e você não quer me fazer um carinho". O contra-ataque de minha amiga foi em voz baixa, mas genial: "homem é tudo igual, até quando é mulher". Só para ajudar a entender minha amiga, é dela a expressão "solidariedade de doidão" que tornei pública na coluna passada.
Outro "causo" envolvendo minha cantora. Teatro Rival, fila de cumprimentos no camarim. Eu tentava fazer um filtro. Em determinado momento, a artista decidiu que não receberia mais ninguém. Nisso, chegam duas meninas lindas e perguntam se podem entrar. Achei que pela beleza das garotas, a patroa abriria uma exceção. Nada feito. Ela não queria. As meninas não desistiram e fizeram a proposta: "diz pra ela que a gente quer tomar um vinhozinho com ela". Voltei ao camarim desesperado para que minha cantora aceitasse a proposta. A resposta foi desanimadora: "É a Ava Gardner? É a Marilyn Monroe? Então dispensa". Não acreditei, protestei, mas não adiantou.
Essa vida de produtor me deu alguns trotes. Certa manhã fui acordado com a ligação. Minha cantora queria mandar flores para Billie Holiday. Tudo bem se uma das divas do Jazz não tivesse morrido havia mais de 30 anos. Comecei a pensar como descobrir onde a cantora estava enterrada. Era uma época sem sites de busca. Quando comecei a me mexer para descobrir o telefone volta a tocar: "Além das flores, compra um quilo de ração também". Entendi tudo, Billie Holiday era a gata que minha cantora tinha com a namorada. As duas tinham brigado e gata tinha ficado no apartamento com a outra. Coisas de casal.
Em meio a um tiroteio no alemão, ou num plantão de fim-de- ano, (ho-ho-ho) sempre me lembrava destas histórias para ver que a vida poderia ser bem pior.
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Meu inesquecível contato com o Rei do Soul
| Soares Júnior | 18/09/2008 00:40:00
Hoje estou a fim de dividir, com quem me dá o privilégio da leitura, histórias antigas. A história a seguir aconteceu quando eu ainda estava no ciclo básico da faculdade, portanto não tinha tarimba nem conhecimento para ao menos passá-la a algum colunista.
Os amigos antigos servem-me como testemunhas e a leitura do maravilhoso livro Vale Tudo, o som e a fúria de Tim Maia, escrito por Nelson Motta, mostra que o episódio fazia parte do repertório do Rei do Soul.
Na metade dos anos 90 trabalhava com música. Talvez para compensar a tímida e frustrada vontade de ser cantor (tem gente que até me acha afinado). Testemunhei durante este tempo momentos que não saem da memória como Nana Caymmi cantando Modinha, de Vinicius de Morais e Tom Jobim, no dia do enterro do maestro, em 1994. Ou ainda um show de Ney Matogrosso e Rafael Rabello para arrecadar fundos para a compositora Rosinha de Valença. Tenho pena de quem gosta de música e não teve a oportunidade de apreciar Rafael Rabello dedilhando arte num violão rebelde e único.
Além do trabalho como assistente de produção no People (tradicional casa de shows dos anos 80 até meados dos anos 90), durante um ano trabalhei com uma cantora. Irônica, inteligente e geniosa, ela tinha talento para se tornar a maior de sua geração. No entanto, seu estilo pouco tradicional e seus hábitos distantes da ortodoxia a impediram.
Quando o telefone tocou naquela manhã já não trabalhava com ela. Não houve barracos, nem nada durante nossa separação, apenas seguimos caminhos diferentes. Eram 8 da manhã. Eu trabalhava até de madrugada, levada que agüentei até a metade da faculdade. Uma ligação naquele horário ainda me pegava no primeiro sono.
Uma voz estridente interrompeu meu idílio com Morpheu: "poderia falar com o senhor Créuso?" Eu interrompi impaciente e disse: "meu nome é Creso." Ela ignorou minha assertiva e prosseguiu: "Peraí, o seu Tim Maia vai falar". Pensei: qual dos meus amigos seria canalha o suficiente para passar o trote num cansado trabalhador.
A segunda pessoa perguntou: "O seu Créuzo está?" Impaciente, reiterei a pronúncia certa do meu nome. Ele prosseguiu: "O seu Tim Maia vai falar". A "pilha" era profissional.
Do outro lado da linha veio um "alô, posso falar com o Creso?" Aquela voz tonitruante era inconfundível. Tim Maia estava falando comigo. Antes que eu pudesse perguntar ele me contou o motivo da inusitada ligação: "Eu quero dar um levado para pagar um advogado para a cantora. Tem muito preconceito com a gente, ela tá certa."
Havia mais de um ano que eu não trabalhava com a cantora. Com seu talento para arrumar confusão, ela havia chamado uma apresentadora de TV de lésbica e foi processada. Quando o oficial de justiça foi notificá-la, ela não abriu a porta e criou uma imensa confusão. Ao saber do tumulto, Tim Maia teve uma "típica solidariedade de doidão", como classificou uma amiga na época.
Depois que assegurei a ele que levaria o recado à cantora ele me presenteou com uma pérola: "Vem cá, teu nome é Creso mesmo? Isso não é nome de gente, é de fechadura de carro - Cresolock". Deu uma inesquecível gargalhada e desligou.
Nunca mais encontrei profissionalmente Tim Maia. Quando ele morreu, alguns anos mais tarde, eu ainda não estava trabalhando em redação. Como fã, lamento que ele não esteja mais colocando aquele vozeirão em alguma canção. Para quem conhece Tim Maia, é bom ouví-lo no auge da forma cantando "These are the songs", num dueto insuperável com Elis Regina. A coletânea Noites Tropicais, produzida por Nelson Motta, traz este tesouro da música produzida por aqui.
Numa próxima oportunidade conto uma história da cantora. Vivi no céu e no inferno durante o trabalho com ela.
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Livros e filmes
Soares Junior | Soares Júnior | 05/09/2008 19:36:00
Encontrei-me com os livros tardiamente. Apesar das coleções que meu pai tinha em casa, como "Tesouros da Juventude" (essa, só os muito antigos vão lembrar), não me interessava.
Minha infância foi nos anos 70 e a televisão foi minha babá em várias oportunidades. Frustrava-me por não saber fazer os desenhos do Daniel Azulay ou os recortes do Plim-Plim. Em compensação, me sentia o próprio Pedrinho do Sítio do Pica-pau Amarelo. Armado com uma atiradeira, pensando em subir na árvore para comer jabuticaba. Claro, também sentia uma pontinha de ciúme do príncipe Escamoso por ele flertar com a Narizinho. Inconscientemente a escolha do nome do meu filho pode ter passado por essa fascinação por um Monteiro Lobato televisivo.
De repente entro na Biblioteca Infantil Maria Mazzetti, na Fundação Casa de Ruy Barbosa. Fui abduzido pelo mundo das letras. A primeira paixão literária foi a Inspetora. Escritos por Santos Oliveira, os livros contavam a história de uma menina que usava óculos e desvendava vários mistérios. Peraí, a Welma do Scooby-Doo também usava óculos. Ih, na ficção as mulheres inteligentes usam óculos. Eu conheço várias na vida real que não usam. Aliás, com a experiência de mulher, filha e cinco irmãs, asseguro, todas as mulheres são inteligentes, pelo menos as que me cercam.
Acho que toda criança deveria se deparar com a magia de uma biblioteca. O universo se descortina, a gente viaja no tempo, tira espada encravada em pedras e vira amigo do Hércules. As facilidades da internet não deveriam distanciar as crianças de uma sala (não-virtual) recheada de livros. Em contrapartida, fico feliz com eventos como feiras de livros infantis, às quais crianças de 5 anos são levadas em excursões por suas escolas e lá escolhem e compram seus livros. No meu tempo nem se pensava nisso
Ainda por esta época vi dois filmes que me trouxeram paixão, angústia e vontade de cultuar os amigos. Perdão, não vou citar Fellini, Bergman ou Truffaut. O primeiro é "Conte Comigo", estrelado por River Phoenix. Um grupo de meninos se reúne para achar o corpo de um garoto no meio do mato. No percurso cada um coloca as suas mazelas, recalques e no fim aflora o heroísmo. O filme não impressionou só a mim. Milton Nascimento compôs uma canção para o protagonista. O outro é "O primeiro ano do resto de nossas vidas". Neste típico exemplar dos anos 80, Rob Lowe (com a cara do Alain Delon), Demi Moore (antes de todas as plásticas e linda) e Andie MacDowell fazem parte de uma turma que tenta se manter unida mesmo depois da faculdade.
Nossa quanta nostalgia!
Estes filmes me lembram juventude e incertezas. Nessa fase achamos que chegará o dia da certeza absoluta. O tempo passa e quero confessar tanto aos que me conhecem há mais de 20 quilos- quer dizer anos- quanto aos que chegaram agora: sei menos a cada dia e isso é angustiante. Continuo lendo para ter mais coisas a perguntar, mas se tenho mais coisas para perguntar é porque as dúvidas aumentaram.
Que paradoxo!?
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A inveja, assim como a intimidade
Soares Júnior | Soares Júnior | 02/09/2008 14:30:46
No começo do governo Garotinho, fiz várias reportagens no Palácio Guanabara. Apesar de não ser praxe em rádio, me tornei praticamente setorista do Governo do Estado. Ao assumir, o político do interior fluminense vinha com uma disposição impressionante, ávido pelas manchetes e por imprimir sua marca à administração.
Ele tinha respostas para tudo e adorava entrar ao vivo na programação. Posso dizer que entrevistar aquele personagem ao vivo fez parte da minha formação profissional. Por ser um profissional do meio, ele dava resposta no tamanho certo, além de ter desenvoltura no ar.
Em mais de uma oportunidade, entrevistei o governador a bordo do carro oficial. Não eram favores, eu aproveitava a oportunidade e o entrevistava. Numa das viagens, contei a ele um episódio.
Houve uma grande chuva no Rio, em 1988. A velha crônica: desabamentos, pessoas ficaram desabrigadas, enfim a tragédia anunciada de alguns verões. Onze anos depois, a Prefeitura removeu algumas famílias que foram abrigadas provisoriamente em contêineres no alto do Morro Dona Marta. Isso mesmo, onze anos. Pois bem, enquanto esperávamos a remoção, uma repórter e um fotógrafo conversavam sobre uma viagem ao exterior. Parece estereótipo de propaganda, mas um garoto acompanhava a conversa. Como a Páscoa estava perto, eles perguntaram o que o menino ganharia. Infeliz pergunta, a resposta foi a incerteza sobre o jantar daquele dia.
Contei esta história ao governador e ele pareceu genuinamente comovido. Um assessor dele chegou a me dizer que Garotinho comentara o caso em uma roda fechada. Sem querer abri um flanco que talvez não devesse ser aberto. A intimidade com a fonte é muito complicada, como mostra a passagem a seguir.
Garotinho apresentava um programa aos sábados na Rádio Tupi. Ele usava o "Fala governador" como tribuna. Secretários eram pautados, adversários atacados, tudo pelas ondas do rádio. Na voz de alguém que entende do veículo, o rádio era um instrumento eficiente para o eleitor/ouvinte.
Era uma passagem quase obrigatória nos plantões de fim de semana. Ao terminar o programa, Garotinho recebia os jornalistas. Numa dessas ocasiões ele estava "atacado". Antes da entrevista ele falou: "não é isso gordinho"?. E lançou um olhar furtivo em minha direção.
Incrédulo, concluí que entendera mal e fiquei quieto. Minutos depois, outra investida: "não é isso gordinho?".
Desta vez não havia possibilidade de erro de cálculo, era comigo. Os colegas olharam, os assessores também. Tudo pareceu parar.
Ferido nos brios e culpado pela adiposidade na cintura, contra-ataquei: "com todo respeito, o senhor não pode falar da minha gordura sem se olhar no espelho.". Ele riu e disse que também precisava de dieta.
Passados alguns anos, engordei. Ele fez até greve de fome. Terá sido pela nossa obesa discussão? Acho que não. Tenho a cota normal de pretensão do ser humano, acredito. Não pretendo tentar ser presidente da República.
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O auto-elogio
Soares Júnioe | Soares Júnior | 27/08/2008 15:00:00
Lembro-me de uma dinâmica de grupo em que avaliava candidatos a um estágio. Éramos uma banca, e é cruel, mas tudo que o candidato faz é avaliado. Existem candidatos de todos os tipos. Tem um que me intriga particularmente, aquele com excesso de autoconfiança. O rapaz fez a "perigosa" redação de apresentação. O texto era irônico, com aquela falsa modéstia que, no fundo, é a constatação da "genialidade" do escriba. Lá no meio do texto - o golpe fatal. Uma provocação e uma espetada na empresa que ele pleiteava ingressar. Apesar de talentoso, sua pretensão tirou sua chance.
Uma chefe falou uma frase que sempre me vem à mente quando a pretensão bate à porta: "fulano é bom, ele não se leva tão a sério". Acho que se levar a sério demais é arrogância.
José Roberto Guimarães é duas vezes campeão olímpico, e uma das primeiras coisas que disse ao término da partida final é que deixara um pedaço de sua alma no fracasso superior. E, no capítulo do não se levar a sério, disse que a medalha dessa vez era amarela, mas amarela de ouro. Em nenhum momento fez aquele discurso fajuto e irritante do "agora os críticos devem se calar", "provamos que éramos os melhores", ou coisas assim.
Vou colocar mão em vespeiro, sei, mas vou criticar o brilhante Bernardinho. Realmente um dos maiores técnicos do voleibol no mundo, comandante da maior seleção da história do esporte, provavelmente. Mas na sua entrevista com o repórter Bruno Laurence, ao fim da derrota para os EUA, ele "se levou a sério" demais.
"Se eu dissesse quando assumi, há oito anos, que ganharíamos seis ligas mundiais, dois campeonatos mundiais, um ouro e uma prata olímpica, o que você acharia?". Bernardinho está certo, ele transformou suor em ouro, mas na minha modesta opinião, alguém deveria dizer isso por ele. Não ele mesmo. Pareceu se justificar. A trajetória dele não precisa disso. O pouco que entendo de vôlei me mostrou que o Brasil perdeu para um time que jogou melhor. Bastava dizer isso. Reitero, esta é minha modesta opinião.
Acho que o brilhante técnico às vezes se perde nas palavras. Quando venceu o mundial em 2006 dedicou o título à mulher. Seria uma bela homenagem se a citada não fosse Fernanda Venturini. Ela e José Roberto não vivem num "mar de rosas". A seleção feminina acabara de amargar mais uma derrota daquelas no mundial da categoria. Teve um certo tom de farpa. Lembro-me que na ocasião Juca Kfouri mandou Bernardinho para o "chuveiro" no CBN Esporte Clube. Neste quadro o jornalista costuma citar as derrapagens de personagens esportivos. A família Bernardinho teve um desempenho pra lá de bom e a frustração pela medalha de prata foi só porque esse time mágico acostumou mal a torcida.
E por falar em auto-elogio, o que dizer do Comitê Olímpico Brasileiro? Receber jornalistas com aquela falácia de melhor participação brasileira em olimpíadas? Dom Carlos I e Único se supera a cada episódio.
P.S.
Voltarei ao assunto clima tenso. Há situações em que sobreviver e entrar no ar são sinônimos e aí, tenso fica o clima, mas como li no comentário do Compan, clima de tensa calma é inacreditável.
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Um certo clima por aí
Soares Júnior | Soares Júnior | 25/08/2008 02:00:00
Quem já conversou mais detidamente comigo conhece minha aversão umbilical, fundamental e substancial à expressão "clima tenso". O termo é primo-irmão de "verdadeira praça de guerra", "visivelmente emocionado(a)" e outros clichês que povoam os textos jornalísticos. Eu sei, a expressão explica uma situação, é curta e poderia caber como uma luva no rádio - veículo em que as frases devem dizer muito em poucas palavras.
São adeptos de "clima tenso" aqueles que têm uma idéia errônea do que é rádio. A criação de uma imagem na cabeça das pessoas não é óbvia. Na narração de uma partida de futebol pelo rádio, a bola passa perto do gol de um jeito diferente para mim e para cada um que me dá o privilégio de acessar este blog.
O assunto não é narração esportiva (gente muito mais capacitada do que eu falará sobre o assunto neste espaço). Minha questão é criação de "imagens sonoras".
Marque um encontro com sua namorada. Cineminha básico às 9 da noite. Como você saiu da faculdade ou do trabalho às seis, rolou o chopp com a galera. Nove e quinze - a sessão de cinema com o status de um projeto fracassado - você liga com aquela voz pastosa e alguns decibéis acima do sóbrio. A tentativa de explicar o inexplicável se dará num ?clima tenso?. Se serve para briga de namorado, a expressão não deveria ser usada na reportagem sobre a reação de uma comunidade após a morte de um traficante ou durante uma operação policial.
As imagens são ricas e a função do profissional que trabalha em rádio é retratar aquele momento. Acho que para o rádio-repórter, tão ou mais importante do que a voz é a sensibilidade no olhar.
Repórter de rádio tem que "enxergar" com o ouvido, com o tato, com o paladar e até mesmo com o nariz. O exemplo disso, que pode parecer absurdo, é dizer ao ouvinte o estonteante odor provocado por uma mortandade de peixes na Lagoa Rodrigo de Freitas.
Há poucos dias houve uma demonstração de jornalismo explícito na rádio CBN. O correspondente de F-1 da emissora, Livio Oricchio, estava dentro de um avião no aeroporto de Barajas, em Madrid.
Livio não tinha muitas informações do que acontecia. Ele sabia que houvera um acidente com um avião e que saía uma densa fumaça de um ponto do aeroporto. O repórter estava, havia meia hora, parado dentro avião. Obviamente, o "clima" era "tenso". No entanto, ele não usou descrições exageradas, abusando nos "erres" e "esses". A preocupação era localizar o ouvinte e ser honesto na descrição do que podia ver.
A notícia anda. Às vezes, pelo fato de na mídia impressa ela chegar condensada, pode gerar a impressão de que os fatos ocorreram todos de uma vez. O rádio tem o privilégio de acompanhar de perto a mobilidade do fato.
O jornalista deu também uma prova de que esta profissão deve ser exercida como um sacerdócio. Não deixamos o ofício ao sair da redação. Acidentes aéreos, por exemplo, não têm cartão de ponto.
A fumaça negra era uma das marcas visíveis de um acidente que provocou a morte de 153 pessoas, entre elas o brasileiro Ronaldo Gomes da Silva. Isso, Livio e o mundo souberam depois. Antes porém, o repórter teve a generosidade de dividir os momentos de expectativa que deixavam aquele confinamento angustiante.
Todos nós que ouvimos aquela entrada fomos transportados para o avião em Madrid e esperamos o desfecho da saga. Isso que, na minha modesta opinião, é criar imagens sonoras.
Acompanhe a entrada de Livio Oricchio na rádio CBN.
A matéria que eu fiz mal
Soares Junior | Soares Júnior | 21/08/2008 10:30:00
Acho que para os sentidos o que aconteceu ontem ou há 10 anos tem o mesmo significado. Não sou especialista em neurociência, mas a sabedoria popular ensina que gato escaldado tem medo de água fria.
Não compreendo os mistérios da gastronomia, mas lembro até hoje de um bife com batata frita degustado em um restaurante no Centro do Rio, quando tinha 5 anos. Não deve ter sido a primeira vez que enfrentei este crime calórico, mas foi meu marco inicial, talvez tenha sido o ato fundador de minha briga com a balança.
Tenho uma marca imperceptível na mão esquerda provocada por uma queimadura. Tinha a idade de minha filha mais nova e vi a chama do fogão. Deve ter sido um espetáculo atraente, pois coloquei a mão e fui parar no hospital. A atemporalidade dos sentidos faz com que não saia da minha mente a história a seguir.
Eu estava há menos de um mês na rádio e fui escalado para cobrir uma ação da Guarda Municipal. A Prefeitura mandara desocupar o calçadão de Madureira, utilizado por camelôs.
Os ambulantes entrincheirados se recusavam a sair. Os guardas tentavam cumprir a determinação. Não guardo muitos detalhes da operação, sei que muito cru na profissão, engasguei várias vezes nas entradas ao vivo. Nesta infância profissional, caneta e papel são muletas necessárias, no entanto, em conflitos urbanos não há espaço para escrever. A ordem nestes momentos é ver e reportar.
Em meio aos conflitos, uma cena estarrecedora. Uma das ambulantes ateou fogo às próprias vestes. A imagem é um clichê para descrever loucos na literatura, mas ali naquele calorento abril no subúrbio carioca não era uma metáfora.
Todos os olhos se voltaram para a mulher. Ela gritava e se debatia no chão. Os jornalistas meio que no instinto e ainda atônitos registravam o espetáculo de horror.
Como no despertar de um transe, alguém gritou: "vamos apagar". O fogo foi debelado, mas o estado de saúde dela era bem grave.
Pouco mais de um mês depois ela morreu. Mórbido, porém inesquecível foi o cheiro de carne humana queimada. Durante muito tempo tentei exorcizar aquele odor e os gritos lancinantes da mulher.
Carrego algumas culpas daquele episódio. A primeira, não ter ajudado a mulher imediatamente. Fiquei estático. A segunda, não ter entrado no ar no ato, a diferença do rádio é justamente poder reportar o fato no momento em que acontece. Minha inexperiência fez com que meu trabalho não fosse bem feito.
Ah, se eu tivesse uma segunda chance...
Acho que neste caso não adiantaria, com certeza teria entrado no ar, mas não sei se teria conseguido ajudar a mulher. Teria conseguido evitar a morte dela? Não tenho resposta e não vou brincar de Deus.
***
PS: Para que fique claro em referência ao último texto. Tenho fé e por isso espero que seja providenciado o reparo na imagem de São Judas Tadeu que fica na estrada do Corcovado. Quem sabe as coisas não se ajeitam ali no quarteirão das ruas Gilberto Cardoso e Mário Ribeiro, num certo clube que anda mancando no páreo do brasileirão.
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Vereador
Soares Júnior | Soares Júnior | 15/08/2008 01:00:00
Este blog vai mudar de característica neste texto. Resolvi contar uma história que se desenvolve e não uma que já passou. Fui apurar como está a memória da campanha de milícias. Manuel Antonio de Almeida que me abençoe.
O candidato deve ser lembrado. Sua imagem e seu número devem estar na memória do eleitor no dia da votação. Uma das formas são aqueles "pirulitos" com o retrato do postulante. Vamos a algumas cifras. Aquelas pessoas que ficam paradas tomando conta ganham uma diária de 30 reais, em média. Claro, fazer tudo na conformidade da lei tem um preço caro. Pagando o INSS e as refeições este recurso de propaganda sai por R$ 1000,00 por mês.
Pelas informações que vou fornecer, todos notarão o porquê de fazer total questão de preservar o sigilo da fonte. Há campanhas para todos os gostos. Uma que tive conhecimento está com previsão de R$ 100 mil a R$120 mil. È uma das mais modestas. Meu ou minha informante - vou brincar de esconde-esconde - calcula que há campanhas que vão custar até R$ 2 milhões. Esperemos pelas prestações de contas na Justiça Eleitoral. A questão que sempre se coloca é: de onde vem este dinheiro e como quem deu vai receber de volta.
Uma janela bem situada em vias expressas como Linha Vermelha ou Avenida Brasil pode valer ao feliz proprietário uma diária de R$ 200 reais. Claro que esta cobrança é ilegal, mas mesmo assim, existe.
Uma candidatura é um investimento, mas pode ser arriscada. Até agora falamos de despesas, mas vamos aos riscos. O personagem desta reportagem passou por situações inusitadas e outras que denunciam a tragédia da nossa guerra urbana.
A engraçada, um dos pirulitos do candidato(a) caiu e ele foi "atropelado(a)". Outro foi abatido a tiros. "Já fui atropelado(a) e atingido(a) por tiros nesta campanha - brinca com a situação - só escapou o meu rosto".
Uma das pessoas envolvidas na sua campanha sofreu uma intimidação na Zona Oeste. Um homem saltou de uma caminhonete e avisou "quem mandou colocar este cartaz aqui? É melhor tirar. "
A personalidade política avalia que está mais difícil fazer campanha nesta eleição do que em outras. "Há uma comunidade de uma região da cidade em que eu sempre tive entre 1000 e 1600 votos. Só que desta vez pessoas amigas minhas avisaram para não trazer cartaz, santinho nem nada porque o lugar já tem dono".
Em uma favela da Zona Oeste, ele conta que os simpatizantes de sua candidatura estão distribuindo folhetos e fazendo campanha escondido, para não sofrerem represálias.
Tal qual alguns cientistas políticos, o(a) candidato(a) avalia que o voto de opinião está acabando. "Quando você faz campanha na rua, as pessoas perguntam: quanto vale esse voto? O que vou ganhar em troca?" Para ele, se o voto fosse facultativo, só seriam eleitos milicianos e candidatos apoiados pelo tráfico.
Praga antiga, os centros sociais espalhados preenchem o vácuo do estado e com o carcinoma do assistencialismo.
Diante dos riscos externos, alguns usam estratégias interessantes, como colocar pessoas de bicicleta andando pelas ruas ou realizando comícios domiciliares e churrascos para grupos de 50 a 100 pessoas.
Apesar de não ser católico, penso em São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis. No entanto, me lembro que em recente visita ao Corcovado vi que a imagem dele às margens da estrada de ferro está com a cabeça decepada. Nem ele vai poder valer por nós nestas circunstâncias.
Para conferir a prestação de contas parciais dos candidato, acesse: http://www4.tse.gov.br/spce2008Divulga/
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Hábitos de um bom amigo
Soares Júnior | Soares Júnior | 12/08/2008 01:00:00
Apoio minha trajetória profissional no rádio num tripé. Rádio é hábito, prestação de serviço e não tem imagem. Os erros que a gente comete são quase sempre por esquecer algum destes preceitos.
A Rádio Globo tem um programa que é a prova de que habituar o ouvinte é uma receita que costuma dar certo. O Show do Antonio Carlos é assim. Não há surpresas. Se você ligar às 6h55 haverá um comentário sobre a novela. Por volta das 8h45 terá a simpatia da pudica e às 8h55 começa uma entrevista. É assim todo dia. Antonio Carlos entrega o que promete e desta forma, o ouvinte confia nele. Antonio Carlos é líder de audiência no Rádio AM há mais de uma década.
Esquecer que o rádio não tem imagem é mais fácil do que se pensa. Desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial, só quem já viveu sabe a dor e a delícia de passar por ele trabalhando. Antes da minha primeira cobertura não tinha assistido a um espetáculo inteiro. E lá fui eu, para o setor de dispersão.
Armado com um microfone e aproximadamente 15 metros de cabo, movimentava-me pela Praça da Apoteose derrubando outros jornalistas, impedindo o caminhar de algum destaque e coisas assim. Um dos momentos tensos da noite foi quando Suzana Alves, a Tiazinha, chegou à dispersão. Ela era a grande sensação do carnaval (?!). Foi um alvoroço e involuntariamente fiz meus colegas de profissão brincarem de pular corda e como ali não era o lugar propício, derrubei alguns e enfrentei olhares hostis.
A atriz Thais Araújo havia desfilado e eu comecei a falar com ela. Disse: converso neste instante com a atriz Thaís Araújo que está irreconhecível...? e emendei alguma pergunta do tipo e a emoção de desfilar na Marquês de Sapucaí. É, os críticos diriam que eu deveria perguntar a importância do negro na cultura brasileira, ou a contribuição do samba para o país resolver a questão do comércio mundial, mas às duas da manhã na Sapucaí, façam-me o favor.
Você deve estar se perguntando, por qual motivo a Thais Araújo estava irreconhecível. Pois é, eu não informei ao distinto público que me ouvia naquele momento. Tal qual quem lê este texto, o ouvinte não sabia que ela estava vestida com uma roupa de época, com uma maquiagem branca, peruca branca, representando Xica da Silva, personagem que a celebrizara na TV. Foi necessário que o âncora da transmissão, Marcos Gomes, me perguntasse a razão pela qual ela estava irreconhecível. Esqueci que rádio não tinha imagem.
Pouco tempo depois a Thaís foi ser minha aluna. Eu olhei para ela e imperdoavelmente não a reconheci. Olhei e achei o rosto familiar, mas não fiz sinapse. Na hora da chamada o nome dela não estava na lista e fiz a indefectível pergunta se alguém não havia sido chamado. Ela levantou o dedo e eu perguntei o nome. Ela disse "Thaís" e eu "Ah, tá". Gentil, ela perdoou a falha do repórter.
E para encerrar uma história para contar o poder de uma boa prestação de serviço. Desenrolava-se a primeira Guerra do Golfo. Um navio da Marinha Mercante brasileira estava na região. A equipe de jornalismo da Rádio Globo conseguiu entrar em contato com a embarcação. Ao atender, o comandante agradeceu o empenho dos repórteres e mandou um recado para os parentes e amigos. Eles não estavam próximos dos bombardeios. No fim da narrativa, o mais inusitado. Eles souberam da preocupação de todos ouvindo a Rádio Globo no meio do Golfo Pérsico. Esqueci mais uma coisa do rádio. Ele é um amigo para todas as horas.
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Os velhos
Soares Júnior | Soares Júnior | 08/08/2008 15:17:16
Sou filho temporão. Tive o privilégio ao longo da vida de conviver com pessoas idosas. O ruim nesta história é que a maioria deles vive só na memória atualmente. A vida profissional colocou-me a entrevistar alguns anciãos.
Três desportistas em especial deram-me munição para a guerra cotidiana, dividindo comigo histórias. O primeiro foi Adhemar Ferreira da Silva. Único atleta brasileiro a ganhar duas medalhas de ouro olímpicas no atletismo. Avisaram-me que ele era arredio com quem não entendia do assunto. O despreparo dos entrevistadores, infelizmente, não é tão raro assim na nossa profissão.
No estádio Célio de Barros era disputada uma competição internacional de atletismo. Por algum motivo que ignoro, meu cérebro guardou que a medalha de ouro nos jogos de Melbourne, em 1956, tinha sido conquistada com um salto de 16m36cm. Perguntei a ele como ele se sentia pelo fato de mesmo 40 anos depois, o salto dele ainda alcançar o pódio numa competição de alto nível.
Ele abriu um enorme sorriso e me concedeu uma longa entrevista. Vocês querem ver a importância do cara. Sozinho ele ganhou duas medalhas de ouro, em Atenas-2004 a delegação inteira ganhou cinco.
O segundo cavalheiro chamava-se Valdir, tornou-se nobre com o apelido, Didi. Cruzei com ele algumas vezes nos corredores da Rádio Globo onde participava costumeiramente das resenhas esportivas.
Ao fazer um especial sobre os 50 anos do Maracanã peguei carona com um colega que marcara uma entrevista com o Folha Seca. Autor do primeiro gol do maraca, Didi continuava com a lucidez intacta, mas o corpo lhe pregara peças. O fotógrafo quis que ele posasse chutando a bola. No entanto, o Príncipe Etíope (alcunha dada por Nelson Rodrigues) tinha a marcação de uma bengala. O jeito foi colocar a bola presa entre a cabeça de Didi e a trave. Escrava em tantos momentos, a pelota ficou ali obedientemente, esperando a chapa ser batida.
O terceiro personagem era um senhor de pele morena e cabelo ralo que me parecia familiar. Meu irmão, que é 18 anos mais velho do que eu, estava que era só empolgação. Este é o Mestre Ziza, o Zizinho ídolo do Pelé.
Achei o máximo e comecei a perguntar. Estávamos em Niterói, ele armado da memória e de scotch. Eu de curiosidade e cerveja. Assim como meu pai, que me contava histórias do Governo Vargas, Zizinho relatava suas façanhas em campo. Esta parte do texto vai ficar bem de menino. Os homens entendem como é bom contar seus feitos no futebol. E aquele cidadão que me dava o privilégio da companhia, era o ídolo do Pelé.
E ele percebia que eu estava empolgado com a saga e me continuava a narrativa. Zizinho falou de uma vez que, com a perna quebrada, conseguiu virar um jogo que estava perdido. Confessou que corria tanto nas partidas, que chegava a perder dois quilos por jogo. Ainda não estava na faculdade, mas uma curiosidade congênita me levou à pergunta sobre a Copa de 50. Com um traço de amargura, ele falou que jogo é assim e o time do Uruguai era bom. Mestre Ziza contou que se irritou com os políticos que queriam tirar proveito dos jogadores antes da finalíssima. Rubro-negro, Zizinho talvez reprovasse o clima no Flamengo antes da partida contra o América do México. Naquela conversa nos anos 90 ele já se incomodava com os rumos do clube.
Passei uma madrugada bebendo com o ídolo do Pelé. Ao final, ele se levantou e foi tranqüilamente, ecos do gingado de outrora ainda se manifestavam no andar. Eu, peladeiro com alguma eficiência, levantei-me trôpego, mesmo tendo menos um terço da idade do mito.
Anos depois, já trabalhando encontrei-o numa pauta. Ele não demonstrou se lembrar de mim, mas o bem já estava feito, a seleção de 50 absolvida e eu com mais um ídolo.
Os três gênios foram extremamente generosos ao dividir as histórias comigo. Estes relatos são lições que tento levar. Espero que a generosidade não seja apenas coisa de velho e nem que velhice seja sinônimo de solidão.
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Imperfeitos, mas deuses
Soares Júnior | Soares Júnior | 04/08/2008 15:30:00
Hoje vou me aventurar numa seara que normalmente não é a minha. Certa feita fui convidado para integrar uma equipe de esportes, mas vi que não daria certo quando ao fazer um jogo, lamentei no ar a expulsão do jogador do meu time. Preferi participar da resenha de todas as segundas na redação. Sou completamente apaixonado pelo tema, mudo de humor na derrota do meu time, e demoro a dormir quando meu time joga às quartas-feiras.
Dentro deste espírito, foi muito bom ver integralmente a final da Copa de 58. O mito construído é que a Suécia fez 1 a 0 por acidente e que depois foi um massacre.. Não foi bem assim, os suecos abriram o marcador e poderiam ter ampliado.
Ávido, queria ver, nesta ordem, Garrincha, Didi e Pelé. No fim do jogo emergiu um sentimento de alívio e orgulho de Vavá integrar o "esquadrão de ouro". Jogador moderno, se movimentava, encarava os suecos e fez os dois gols que colocaram o trem nos trilhos.
Garrincha não ganhou todas as jogadas do adversário. Não cabia no mito que o João nem sempre era João. Garrincha não era perfeito em campo e poderia ter dado alguns passes em vez de ser individualista. Quando assisti a partida, ele ganhou dimensão humana e acabou o processo de conquista que havia começado na leitura do indispensável "Estrela Solitária", de Ruy Castro.
Como sou da época do futebol de resultados, vamos aos fatos. Ele passou como quis pelos adversários em pelo menos três oportunidades. Em duas delas Vavá completou o cruzamento e colocou o expresso nos trilhos. Por muito menos o Flamengo lamenta a saída do Marcinho.
Didi não fez nada de especial no jogo. Estranhamente, ele não errou passes. A bola saía dele e parava num lugar que não estava ninguém. Um segundo depois aparecia um pé brasileiro. Ele sabia que o companheiro ia estar naquele lugar antes do cérebro do outro fazer a sinapse. Imponente buscou a bola depois do primeiro gol e mostrou aos suecos que eles poderiam vencer, mas lutariam com um time de muita oportunidade. Sinceramente, tive a impressão que Didi escravizava o ritmo do jogo, quase que indolentemente.
Pelé era um moleque franzino, que perdeu muitos lances na disputa com os fortes zagueiros suecos. Chegou a dar um chute que saiu pela lateral. Pedra bruta que mostrou no que daria a lapidação no momento do terceiro gol. Ele deu um lençol no adversário e fugiu du a falta. A fuga foi intuitiva ou racional. Aposto no raciocínio, ele sabia o que o adversário faria, evitou a pancada e assinou a pintura.
Eles não eram perfeitos, erravam passes, faziam faltas e tinham adversários. Ao vê-los, em ação durante 90 minutos os coloquei no meu Olimpo particular. Obrigado tecnologia, finalmente vi Garrincha driblar, Didi desfilar e Pelé ser genial. O tempo era outro e o esporte mais lento. No entanto o que eles faziam era sublime. Agora sei disso não preciso mais de críticos saudosistas. Artur Xexéo escreveu algo como alguns filmes brasileiros que consagramos não passariam incólumes por uma sessão no Canal Brasil. Temi que acontecesse isso com a final de 58. Felizmente, o temor não se confirmou.
Agora só falta conseguir ver um jogo do Zizinho, aí vou me dar por satisfeito. Aliás, Zizinho será o tema da próxima coluna.
Até a próxima.
Ouça trechos da narração no endereço:
http://www.radionacional.am.br/copa58/?page_id=52
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Enternecer apesar das facas
Soares Júnior | Soares Júnior | 31/07/2008 15:00:00
Ouvi uma frase tão lírica que tive vontade de dividir com aqueles que me dão o privilégio da leitura. A sentença é a seguinte "isso é tão velho que é do tempo que meu avô era em preto-e-branco". Aproveitei e pensei no que era preto-e-branco na minha vida.
Na minha galeria vieram a bola branca e gomos pretos com os nomes dos tricampeões do mundo, a meia branca e o kichute preto do uniforme da escola. Além disso, tinha a Paula Saldanha, no Globinho, o Vila Sésamo, com Armando Bogus e Sônia Braga, e a novela Estúpido Cupido. Ah, essa ficava colorida fase final, mas a TV lá de casa era preto-e-branco, então não adiantou nada. Achei essa frase cheia de ternura e pena que a gente esteja cada vez mais em dívida com esse sentimento.
Ao chegar à redação naquele dia encontrei o repórter da madrugada desolado. Bandidos haviam assaltado uma mulher e duas crianças. Os homens levaram o carro e a mãe não teve tempo de soltar o filho mais novo. Os monstros arrastaram a criança.
Terrível, segundo as palavras do repórter a cena era inacreditável. A história iria crescer e junto da indignação veio o cuidado para que a firmeza jornalística não desse lugar a sensacionalismo. Deveríamos relatar o que vimos, no entanto a descrição com detalhes sórdidos seria evitada.
João Hélio não teve tempo de fazer uma retrospectiva do que era preto-e-branco na sua vida. Não teve tempo de aprender o que era retrospctiva, tinha 6 anos. E o que falar de João Roberto, morto numa barbárie com apenas 3 anos. Monstruosidade cometida por quem deveria proteger. É a tal da falta de ternura? Não, é pior, é a falta de esperança no ser humano.
E por vezes no mais profundo da dor, um personagem fala algo simples, este foi o caso do pai de João Roberto. A frase foi na justa medida do que a gente pensa: "polícia não é para matar".
A simplicidade deste sentença me lembra a frase do começo, "do tempo que meu avô era preto-e-branco". O autor da frase é o meu filho, que não é João, mas tem nome de santo também. O rapaz ainda não teve tempo de se contaminar pela "desternura" (ok, inventei essa palavra, mas um ministro inventou imexível).
Como canta Mônica Salmaso "história de criança tem que ter final feliz".
Acompanhe a entrevista com a repórter Silvana Maciel que acompanhou as tragédias dos dois meninos chamados João.
Personagens importantes
Soares Júnior | Soares Júnior | 28/07/2008 14:00:00
Parte da família nordestina trouxe para mim hábitos que podem soar estranhos aos que têm uma visão única das coisas. Cresci tentando entender porque minha mãe guardava um retrato com o enterro do primeiro marido dela.
A fotografia era solenemente mórbida. O caixão branco no meio e todos os presentes ao velório rodeando o homem morto. A imagem é uma daquelas que não desabitam a memória. Não vejo a foto há mais de 25 anos, mesmo assim continua na retina.
Minha mãe ensinou-me a gostar de arroz, feijão e farinha amassados com a mão. O segredo é misturar fazer o bolinho e conduzir com a mão até a boca. Peixe com leite de coco. Ela tinha orgulho de guardar a foto e de ter conseguido criar sete filhos sozinha depois da morte do primeiro marido.
Os personagens são essenciais numa reportagem. Nas de economia nem se fala. As histórias das pessoas são a melhor forma de traduzir a numeralha. Ao fazer uma série de reportagens com dados da Pesquisa de Orçamentos familiares do IBGE reencontrei um desses batalhadores. O trabalho é o seguinte, você recebe um calhamaço com cerca de 300 páginas recheadas com gráficos e estatísticas. A função do repórter é transformar aqueles números em vida.
Um dos aspectos relevantes do levantamento era que no Nordeste aumentava o número de idosos responsáveis pela família. O motivo era simples, os que conseguiam a aposentadoria rural, eram a garantia de um rendimento certo numa terra de incertezas secas e áridas.
Em busca de personagens esbarrei em um agricultor de uma cidade a 400 quilômetros de Recife. Ele ganhava em 2004 um salário de R$ 240 por mês. Desabei quando o homem explicou que aquela era renda com a qual uma família com 16 pessoas contava. Neste momento "meu programa entrou em looping". O homem dizia que o resto do sustento saía da venda esporádica de galinhas e hortaliças. Chorei e por sorte a minha amiga Carolina Morand dividia a reportagem comigo. Ela tomou o telefone das minhas mãos e terminou a entrevista.
Minha mãe teve uma história semelhante e isso mexeu comigo. Imagino que seu José tenha algum retrato do enterro de um ente querido.
A luta contra um agreste inóspito faria de dona Alzira seria um belo personagem sobre retirantes que tentam a vida melhor no "Sul Maravilha". Aguinaldo Silva em "Senhora do Destino" e Chico Buarque em "Brejo da Cruz" já foram brilhantes ao descrever estes seres que às vezes "comiam luz". Foram menos áridos do que Graciliano Ramos em "Vidas Secas" e por isso menos viscerais, mas isso é literatura e o papo aqui é jornalismo.
Jornalisticamente, o personagem é vital para o transporte do ouvinte/leitor/ telespectador para o interior de uma história. Relato que é dele, personagem, mas pode caber na vida de qualquer um.










